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MORAL NÃO SE COMPRA COM DÓLAR

 

Alberto Mesquita Filho

Este artigo foi postado no newsgroup uol.politica.internacional.guerra, da Usenet brasileira, em 02 de abril de 2003.

 

 

Meus caros

Andei lendo hoje alguma coisa relativa à doutrina Bush. Não consegui ver muita diferença entre essa panacéia e o macartismo ou outros "democracismos" que perambulam pelas terras do tio Sam há mais de 50 anos. Em meio a minhas leituras chamou-me a atenção um artigo do New York Times do dia 31 escrito por Max Boot. O autor parece acreditar no que fala, a exemplo de muitos daqueles que vêm aqui nesse news defender o império da mediocridade moral. Tanto assim é que apóia-se no que tenho chamado "A guerra da mentira" para conceituar o que seria", na visão dele, "a nova moral da guerra".

Não pretendo fazer a análise do texto, pois isso seria uma tarefa para um livro, jamais para uma curta mensagem de news. Digo apenas que o artigo é de pouco interesse a não ser por algumas passagens a identificá-lo ao que hoje convencionou-se chamar doutrina Bush. Vou comentar então algumas frases pinçadas em meio ao texto.

O artigo começa com o seguinte parágrafo:

"Ao ver imagens do bombardeio a Bagdá, me veio à cabeça outra campanha americana de bombardeio, lançada há 58 anos. Em 9 de março de 1945, mais de 300 "superfortalezas voadoras" B-29 atacaram Tóquio. Suas bombas de napalm e magnésio transformaram uma área de 42 km2 densamente povoada num inferno. Estimadas 84 mil pessoas, na maioria civis, foram mortas, num dos dias mais trágicos de toda a história das guerras."

Muito interessante. Antes de presentearem o Japão com as rosas de Hiroshima e Nagasaki, o Império do tio Sam já se utilizava impunemente das armas que hoje seriam condenadas pela imensa maioria dos homens de boa vontade. Sim, os tempos eram outros, mas a imoralidade dos beligerantes yankees era a mesma. Condena-se a atitude do então (1945) presidente dos EUA ao autorizar o genocídio das populações civis de Hiroxima e Nagasaki, num espetáculo jamais presenciado pelos maiores crápulas da humanidade de todos os tempos; mas deixa-se em segundo plano este que teria sido, segundo Boot, "um dos dias mais trágicos de toda a história das guerras", quando o exército do tio Sam mostrou a que viera. Em nome de Satanás, inaugurou a fase mais negra de nossa história, a transformar a guerra entre soldados num covarde infanticídio demoníaco a vigorar por toda a segunda metade do século XX e ora a avançar impunemente para o século XXI, sob a falsa bandeira de "libertação dos povos".

Covardes sim! Povo sem caráter! Sem honra, sem glórias e sem nada que não seja o amor pelo papel moeda. O mundo jamais esquecerá esse Tigre de Papel que amealhou riquezas --não naturais, não próprias e não genuínas de seu solo, é bom que se diga-- às custas da desgraça da imensa maioria da população mundial do século XX. Que o restante do mundo, ciente de que os EUA representam a escória da humanidade, consiga no transcorrer deste século dar ao papel chamado dólar o valor que ele merece. Para que as crianças dos EUA possam aprender a brincar de aviãozinho, no estilo Sílvio Santos. Pois moral não se compra com dinheiro e dignidade não se adquire através da venda de armas assassinas para meliantes secundários, como Saddam Hussein ou Bin Laden; e muito menos através de sua utilização impune, como têm sido feito pelos genuínos assassinos internacionais a presidirem os EUA por décadas e décadas a fio.

O povo dos EUA que me perdoe. Já flagrei aqui nesse news alguns descontentamentos por estar generalizando os crimes de Bush (e de quase todos os outros 10 presidentes anteriores a Bush) a toda uma nação. A verdade é que não há como isentá-los dessa culpa. Marasmo é um crime menor, mas não deixa de ser crime. Conivência, por outro lado, já é quase cumplicidade. Não obstante, aplaudir em praça pública megalomaníacos assassinos da estirpe do Bush pai, do Bush filho e de tantos outros que se sentaram na cadeira de Satã, é algo a não merecer nada além do nosso repúdio, da nossa indignação e/ou até mesmo a despertar a nossa comiseração. À esmagadora minoria dos yankees de boa vontade, não nos resta nada a não ser desejar que a máxima oriental (no extremo o yang transmuta-se no yin) transforme-se em realidade, e que o extremo do nosso yang (ódio ao desamor) sirva para transmutar o yang deles (ódio ao próximo) no nosso yin (amor ao próximo). Esta seria a verdadeira libertação, e se há um povo que merece ser libertado este é o pobre povo "rico" dos EUA.

Mas voltemos ao artigo do Boot. Após seu início triunfal, ele evolui em direção à complacência ou, até mesmo, à conivência com a brutalidade assassina de seus políticos compatriotas. Enfatiza os avanços da tecnologia bélica chegando quase a vestir demônios de anjos. Em meio à apologia à precisão da artilharia do "cavalheiresco" exército do tio Sam, chega mesmo a dar a entender que os defensores dos direitos humanos estariam sendo injustos. Pois estariam a denunciar "acidentes" que outrora teriam passado desapercebidos. Muito estranha essa dialética. Mais estranho, senão tragicômico, é perceber ter sido esta a falsa dialética que flagraram nos falsos marxistas que tanto combateram por todo o século XX: a mentira, em meio à mentira, transformando-se na "verdade", assim como menos por menos dá mais. Em meio a essa "lógica", procura transferir para o "tapetão" dos donos da "verdade" a decisão sobre onde e quando estaria justificada a matança de civis. Nas palavras de Boot:

"Para evitar esses acidentes, os planejadores americanos tomam cuidado extraordinário. Quase todas as decisões sobre alvos são examinadas por advogados, que decidem se os benefícios esperados superam os riscos de vítimas civis."

No meu país isso tem outro nome: crime organizado. Existe, com efeito, mas os nossos jornalistas ainda não se acostumaram a conviver com essa realidade e muito menos a idolatrar esses assassinos sanguinários. Ou seja, temos assassinos, mas temos também uma imprensa que ainda não chegou a esse nível extremo de corrupção.

Quase ao final do artigo, o autor chega a denunciar uma das táticas utilizada pelos pés descalços iraquianos:

"O Iraque tem plena consciência da sensibilidade dos EUA em relação a vítimas civis e tenta explorar isso. Quando não mostra imagens de soldados americanos mortos, a televisão iraquiana transmite cenas de civis feridos ou mortos."

Ou seja, é o roto falando mal do esfarrapado. Pois os EUA também têm plena consciência dessa sensibilidade de seu povo, pois do contrário não se preocupariam tanto em censurar a imprensa, em agredir jornalistas de outros países e em promover a lavagem cerebral (quando não econômica, através de ameaças) de seus próprios jornalistas. Isso fica patente no seguinte trecho do artigo do jornalista do New York Times:

"Em todos esses casos, um regime desumano usa nossa humanidade contra os EUA."

Boot com isso está ofendendo o bom senso de cerca de 94% da população mundial. Como se nós fossemos defensores do sanguinário Saddam e contrário à política pacifista dos anjos do senhor Bush. Aliás, é esse o refrão que os sobrinhos do tio Bush repetem aqui neste news a cada 10 minutos. Estou falando dos pobres coitados yankees tupiniquins que aqui surgem, incapazes de construir um parágrafo cujas frases se entrelacem em torno de uma idéia comum.

Boot conclui o artigo tentando amenizar possíveis críticas que os políticos do outro partido que não o do tio Bush poderão fazer após o desfecho da batalha. Está quase que a justificar o número de baixas e a matança de civis que está por vir. Ou muito me engano, ou Boot é pau mandado de Bush.

O artigo do Boot (não aconselho a leitura) pode ser lido em português em http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2003/03/31/int032.html

[ ]´s
Alberto

 

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