Meus caros
Andei lendo
hoje alguma coisa relativa à doutrina Bush. Não consegui ver muita
diferença entre essa panacéia e o macartismo ou outros
"democracismos" que perambulam pelas terras do tio Sam há
mais de 50 anos. Em meio a minhas leituras chamou-me a atenção um
artigo do New York Times do dia 31 escrito por Max Boot. O autor
parece acreditar no que fala, a exemplo de muitos daqueles que vêm
aqui nesse news defender o império da mediocridade moral. Tanto assim
é que apóia-se no que tenho chamado "A guerra da mentira"
para conceituar o que seria", na visão dele, "a nova moral
da guerra".
Não pretendo
fazer a análise do texto, pois isso seria uma tarefa para um livro,
jamais para uma curta mensagem de news. Digo apenas que o artigo é de
pouco interesse a não ser por algumas passagens a identificá-lo ao
que hoje convencionou-se chamar doutrina Bush. Vou comentar então
algumas frases pinçadas em meio ao texto.
O artigo começa
com o seguinte parágrafo:
"Ao ver
imagens do bombardeio a Bagdá, me veio à cabeça outra campanha
americana de bombardeio, lançada há 58 anos. Em 9 de março de 1945,
mais de 300 "superfortalezas voadoras" B-29 atacaram Tóquio.
Suas bombas de napalm e magnésio transformaram uma área de 42 km2
densamente povoada num inferno. Estimadas 84 mil pessoas, na maioria
civis, foram mortas, num dos dias mais trágicos de toda a história
das guerras."
Muito
interessante. Antes de presentearem o Japão com as rosas de Hiroshima
e Nagasaki, o Império do tio Sam já se utilizava impunemente das
armas que hoje seriam condenadas pela imensa maioria dos homens de boa
vontade. Sim, os tempos eram outros, mas a imoralidade dos
beligerantes yankees era a mesma. Condena-se a atitude do então
(1945) presidente dos EUA ao autorizar o genocídio das populações
civis de Hiroxima e Nagasaki, num espetáculo jamais presenciado pelos
maiores crápulas da humanidade de todos os tempos; mas deixa-se em
segundo plano este que teria sido, segundo Boot, "um dos dias
mais trágicos de toda a história das guerras", quando o exército
do tio Sam mostrou a que viera. Em nome de Satanás, inaugurou a fase
mais negra de nossa história, a transformar a guerra entre soldados
num covarde infanticídio demoníaco a vigorar por toda a segunda
metade do século XX e ora a avançar impunemente para o século XXI,
sob a falsa bandeira de "libertação dos povos".
Covardes sim!
Povo sem caráter! Sem honra, sem glórias e sem nada que não seja o
amor pelo papel moeda. O mundo jamais esquecerá esse Tigre de Papel
que amealhou riquezas --não naturais, não próprias e não genuínas
de seu solo, é bom que se diga-- às custas da desgraça da imensa
maioria da população mundial do século XX. Que o restante do mundo,
ciente de que os EUA representam a escória da humanidade, consiga no
transcorrer deste século dar ao papel chamado dólar o valor que ele
merece. Para que as crianças dos EUA possam aprender a brincar de aviãozinho,
no estilo Sílvio Santos. Pois moral não se compra com dinheiro e
dignidade não se adquire através da venda de armas assassinas para
meliantes secundários, como Saddam Hussein ou Bin Laden; e muito
menos através de sua utilização impune, como têm sido feito pelos
genuínos assassinos internacionais a presidirem os EUA por décadas e
décadas a fio.
O povo dos EUA
que me perdoe. Já flagrei aqui nesse news alguns descontentamentos
por estar generalizando os crimes de Bush (e de quase todos os outros
10 presidentes anteriores a Bush) a toda uma nação. A verdade é que
não há como isentá-los dessa culpa. Marasmo é um crime menor, mas
não deixa de ser crime. Conivência, por outro lado, já é quase
cumplicidade. Não obstante, aplaudir em praça pública megalomaníacos
assassinos da estirpe do Bush pai, do Bush filho e de tantos outros
que se sentaram na cadeira de Satã, é algo a não merecer nada além
do nosso repúdio, da nossa indignação e/ou até mesmo a despertar a
nossa comiseração. À esmagadora minoria dos yankees de boa vontade,
não nos resta nada a não ser desejar que a máxima oriental (no
extremo o yang transmuta-se no yin) transforme-se em realidade, e que
o extremo do nosso yang (ódio ao desamor) sirva para transmutar o
yang deles (ódio ao próximo) no nosso yin (amor ao próximo). Esta
seria a verdadeira libertação, e se há um povo que merece ser
libertado este é o pobre povo "rico" dos EUA.
Mas voltemos ao
artigo do Boot. Após seu início triunfal, ele evolui em direção à
complacência ou, até mesmo, à conivência com a brutalidade
assassina de seus políticos compatriotas. Enfatiza os avanços da
tecnologia bélica chegando quase a vestir demônios de anjos. Em meio
à apologia à precisão da artilharia do "cavalheiresco" exército
do tio Sam, chega mesmo a dar a entender que os defensores dos
direitos humanos estariam sendo injustos. Pois estariam a denunciar
"acidentes" que outrora teriam passado desapercebidos. Muito
estranha essa dialética. Mais estranho, senão tragicômico, é
perceber ter sido esta a falsa dialética que flagraram nos falsos
marxistas que tanto combateram por todo o século XX: a mentira, em
meio à mentira, transformando-se na "verdade", assim como
menos por menos dá mais. Em meio a essa "lógica", procura
transferir para o "tapetão" dos donos da
"verdade" a decisão sobre onde e quando estaria justificada
a matança de civis. Nas palavras de Boot:
"Para evitar esses
acidentes, os planejadores americanos tomam cuidado extraordinário.
Quase todas as decisões sobre alvos são examinadas por advogados,
que decidem se os benefícios esperados superam os riscos de vítimas
civis."
No meu país isso tem outro nome: crime organizado.
Existe, com efeito, mas os nossos jornalistas ainda não se
acostumaram a conviver com essa realidade e muito menos a idolatrar
esses assassinos sanguinários. Ou seja, temos assassinos, mas temos
também uma imprensa que ainda não chegou a esse nível extremo de
corrupção.
Quase ao final
do artigo, o autor chega a denunciar uma das táticas utilizada pelos
pés descalços iraquianos:
"O Iraque tem plena consciência da
sensibilidade dos EUA em relação a vítimas civis e tenta explorar
isso. Quando não mostra imagens de soldados americanos mortos, a
televisão iraquiana transmite cenas de civis feridos ou mortos."
Ou seja, é o roto falando mal do esfarrapado. Pois os EUA também têm
plena consciência dessa sensibilidade de seu povo, pois do contrário
não se preocupariam tanto em censurar a imprensa, em agredir
jornalistas de outros países e em promover a lavagem cerebral (quando
não econômica, através de ameaças) de seus próprios jornalistas.
Isso fica patente no seguinte trecho do artigo do jornalista do New
York Times:
"Em todos esses casos, um regime desumano usa nossa
humanidade contra os EUA."
Boot com isso está ofendendo o bom
senso de cerca de 94% da população mundial. Como se nós fossemos
defensores do sanguinário Saddam e contrário à política pacifista
dos anjos do senhor Bush. Aliás, é esse o refrão que os sobrinhos
do tio Bush repetem aqui neste news a cada 10 minutos. Estou falando
dos pobres coitados yankees tupiniquins que aqui surgem, incapazes de
construir um parágrafo cujas frases se entrelacem em torno de uma idéia
comum.
Boot conclui o
artigo tentando amenizar possíveis críticas que os políticos do
outro partido que não o do tio Bush poderão fazer após o desfecho
da batalha. Está quase que a justificar o número de baixas e a matança
de civis que está por vir. Ou muito me engano, ou Boot é pau mandado
de Bush.
O artigo do
Boot (não aconselho a leitura) pode ser lido em português em http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2003/03/31/int032.html
[ ]´s
Alberto