Espaço Científico Cultural

CHAMBERLAND E O PARAÍSO PERDIDO

 

EPÍLOGO
capítulos CXXIII CXXXI




Você está ouvindo "Desculpe, mas já é Carnaval
"
de Alberto Mesquita Filho com arranjo de
Paulo Rodrigues Camargo Júnior

Capítulo CXXIII

      NO DIA 30 DE JANEIRO, foram afixadas, nos Cursinhos, as listas com a relação dos aprovados na FUVEST. Aproveitei para espairecer. Há dias que não via outra coisa que não fosse minha máquina de escrever.

      O saguão do Anglo Sergipe estava repleto de jovens. Alguns alegres, outros tristes, e terceiros indiferentes. Muitos não haviam passado na primeira fase e compareceram para assistir a festa.

      A lista de Física era uma das primeiras. Procurei o meu nome e... estava lá! Instintivamente saltei para a letra J: Jeovah, João Ribeiro, João Teodoro, Joel... Não! Não havia nenhum João Batista.

      Nem podia, pensei. Milagres não acontecem todos os dias. Meus olhos ficaram mareados e fiz um esforço muito grande para não chorar. E foi então que pensei: O vestibular de João foi outro. Por esse, algum dia, eu também vou passar.

      Nem bem concluíra esse pensamento, uma voz vibrou atrás de mim:

      ¾ Vovô! ¾ Era o Xarope. ¾ Meus parabéns. A nossa turma é boa mesmo, ¾ continuou, ¾ entrou todo o mundo, eu já vi. Vamos comemorar...

      Menos o João, pensei. Mas o dia era de festas e os jovens não estavam na minha. Procurei sorrir ao ver o Xarope todo pintado com pincel hidrocor.

      ¾ Ei,... O vovô está chorando de alegria, gente! Vejam só! Acho que a emoção foi muito forte pro velho. Vamos tomar um chope, vovô, que isso passa.

      ¾ Você entrou em quê, Xarope? ¾ recompus-me.

      ¾ Física. Vamos ser colegas novamente.

      ¾ Não!

      ¾ Sim. E este ano venho na sua carona da USP até a Consolação.

      ¾ Vai começar tudo de novo!

      ¾ O quê? ¾ estranhou o Xarope.

      ¾ Nada, não. Estava pensando em voz alta.

      ¾ Foi então que ouvi a Aquarela do Toquinho, solada em violão e com muitos jovens cantando. Mas não era o Toquinho. Aquele som só podia ser do...

      ¾ Cazuza! ¾ exclamei tão logo o vi cercado de ETs.

      ¾ Coroa! ¾ Cazuza interrompeu o som e, sob vaias, deixou o violão com a Simone e veio me abraçar.

      ¾ O Cazuza entrou em Elétricas ¾ adiantou-se o Xarope; ¾ e a Simone em Computação. Nossa turma é boa mesmo ¾ repetiu.

      O Cazuza estava mais pintado que o Xarope. Na testa, nas bochechas, nas pálpebras...

      ¾ Veja o que o Xarope fez comigo, coroa, nem o violão escapou. Espero que saia.

      ¾ Ora, isso é hora pra se preocupar com o violão? ¾ questionou o Xarope. ¾ Você entrou na Faculdade, moço! E na USP! Sabe lá o que é isso?... Bem, já que estamos todos aí, vamos comemorar. Oi, Marcos, junte-se a nós.

      ¾ O Marcos entrou na Medicina, vovô, ¾ continuou o Xarope, ¾ vai ser colega seu. Mas vamos lá. Desta vez quem escolhe o botequim sou eu. E quem paga é o vovô, certo? Dó maior, Cazuza, o Carnaval começou:
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Carnaval na Barra - Música e letra de Alberto Mesquita Filho com arranjo de Paulo Rodrigues Camargo Júnior
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Desculpe, mas já é carnaval
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Mamã mã mã mã mamãe

Até quarta-feira,

Eu pulo no embalo da Mangueira,

Sem que ninguém veja,

Me mando, movido a cerveja;

Se o velho perguntá:

Fui dá plantão em Paquetá.

Não me leve a mal,

Desculpe, mas já é Carnaval

 

Mamã mamã

Não me segure,

Eu vou embora,

Se não eu vou perder a hora.

Assista na TV:

Eu e a Lili

Sambando na Sapucaí.

 

Mamã mamã mamãe eu quero,

Mamãe eu quero,

Mamãe eu quero pulá,

Guarde a chupeta,

Não faz careta,

Não se intrometa,

Hoje eu não quero trabalhá.

 


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Capítulo CXXIV

      4 DE FEVEREIRO de 1989.

      Sábado de Carnaval.

      ¾ Missão cumprida, ¾ exclamei eufórico ao bater na máquina a última palavra.

      ¾ Falando sozinho, pai, ¾ surpreendeu-me minha filha ao entrar na sala.

      ¾ Oi, querida, bom dia. Sabe que horas são?

      ¾ Oito horas. Você já tomou o café?

      ¾ Sim, ¾ falei, ¾ acordei às quatro. E aproveitei para terminar o trabalho que estava fazendo. Quando sua mãe acordar, ¾ continuei a falar enquanto reunia as folhas dispersas, ¾ diga que volto para o almoço. Um beijão e... tchau.

      ¾ Tchau, pai.

Capítulo CXXV

      NAQUELE DIA EU estava chorando em meu quarto e mamãe foi me consolar. Conversávamos há uns trinta minutos quando Rodrigo entrou:

      ¾ Eu já estou saindo, mãe, ¾ disse Rodrigo, ¾ vou almoçar com o Simão... e à noite vamos pular no Juventus.

      ¾ Você não vem para o jantar? ¾ perguntou mamãe.

      ¾ Talvez, mãe. Glorinha, você não quer mesmo ir ao baile desta noite?

      ¾ Nesse estado, Rodrigo? ¾ bradou mamãe. ¾ Você enlouqueceu? Quer matar sua irmã?

      ¾ Ora, ¾ contestou Rodrigo, ¾ ela pode ficar sentada. A Glorinha nunca perdeu um Carnaval, não é mana?

      ¾ Sim, mas desta vez eu não vou. Obrigada Rodrigo, ¾ respondi.

      ¾ Você é quem sabe, mana, ¾ completou Rodrigo.

      Priiiiiiimmmmmm...

      ¾ É a campainha, ¾ falou Rodrigo. ¾ Deixa que eu atendo.

      ¾ Se for para mim eu não estou, ¾ acrescentou mamãe; ¾ não estou em trajes de receber visitas.

      ¾ OK, mama!

      ...

      ¾ Gloriiiinhaaaaáááá!!! ¾ gritou Rodrigo. ¾ Visita pra você. É o doutor amigo de João.

Capítulo CXXVI

      ¾ PADRINHO, O SENHOR por aqui? Quanta alegria isso nos dá!

      ¾ Bem sei que a vida não lhe sorri, ¾ falou com um ar misterioso. ¾ Como vai a criança? Já deve estar entrando no sexto mês.

      O padrinho hoje está sério, pensei. O que será que ele trás nas mãos?

      ¾ Ainda não começou a se mexer, ¾ respondi, ¾ mas o médico disse que está tudo em ordem.

      ¾ Trouxe algo de... João, ¾ falou o padrinho, e parecia que as palavras lhe fugiam. ¾ Eis!... Aqui está traduzido o... último desejo de João. Talvez... possa te consolar;... talvez te entristecer;... ou... quem sabe,... te libertar.

      Ora, o que será isso, pensei ao tomá-lo em minhas mãos? Deixe-me ver. Enquanto isso o padrinho continuou:

      ¾ Leia-o e guarde-o. Um dia o garoto quererá saber quem foi seu pai. Procurei ser fiel à imagem do João que conheci.

      É a historia da vida de João! Olha aqui! O Soneto em Se Maior!

      ¾ Trago sempre essa poesia comigo, ¾ falei. ¾ João a fez para mim.

      Quase chorei ao completar essa última frase.

      ¾ Bem, Glorinha, eu já vou indo, ¾ acrescentou o padrinho, já mais aliviado. ¾ Breve voltarei. Sim! Vê-la-ei antes do parto. Não deixe de me procurar se precisar de alguma coisa. Lembranças a seu pai e a sua mãe. Diga a ela que o café estava delicioso. Até mais e... leia-o devagar.

      ¾ Até mais, padrinho. Ah, vi seu nome no jornal. Meus parabéns.

      ¾ Obrigado, Glorinha.

Capítulo CXXVII

      PASSAVA DAS 12 horas quando entrei no cemitério... Mais quatro quadras para a direita,... duas à esquerda... Ei-lo!...

      Gostei do que vi. Francisco me atendera. E conseguira colocar o espelho dando um toque respeitoso. Aproximei-me com a cópia do que escevera nas mãos e rezei.

Duas rosas coloquei
Defronte ao espelho
Do túmulo de João
E não chorei.

Sim! Ao contrário, sorri
Ao deixar sobre o jazigo
O belo que ainda se vê
Algures de Chamberland.

Esta uma... é para ti,
Cunhado amigo;
Esta outra..., pra você,
Querida irmã.

Capítulo CXXVIII

      NO DIA 22 DE FEVEREIRO, férias vencidas, voltei à Cidade Universitária para levar a xerox da carteira de identidade. Chegando lá encontrei o Xarope dando uma canseira nos veteranos. Ouvi um deles que dizia:

      ¾ Hoje não tem trote, pode ir se mandando.

      Tão logo me viu, o Xarope gritou:

      ¾ Ei, vovô, que surpresa! Oi, turma, vocês não vão dar trote no vovô? O cabelo dele está bem comprido.

      ¾ Eu tenho uma carta de alforria, Xarope, ¾ falei enquanto mostrava a carteirinha empoeirada do Centro Acadêmico Osvaldo Cruz.

      ¾ Assim não vale, ¾ resmungou o Xarope. ¾ Nossa, como você está jovem nessa foto? ¾ e mudou de assunto: ¾ Eu vou com você até a Consolação. Esses caras aí não estão com nada hoje ¾ e apontou para meia dúzia de veteranos que conversavam animadamente.

      Após a entrega da xerox convidei o Xarope a tomar um cafezinho. Enquanto tomávamos:

      ¾ Procura alguém, vovô?

      ¾ Heim?

      ¾ O bar está vazio, ¾ insistiu o Xarope, ¾ não tem ninguém aí. Ei, cuidado com esse café.

      ¾ Heim?

      ¾ Você não está legal, vovô? Aquela sala está vazia.

      ¾ Ô, é mesmo, aquela sala. Será que o Rodney está lá?

      ¾ E quem é esse Rodney? ¾ perguntou o Xarope.

      ¾ Ele é da equipe da Nova Stella, a revista do Centro Acadêmico, ¾ respondi.

      ¾ Então vamos lá dar uma olhada, ¾ adiantou-se o Xarope.

      ¾ Sim, vamos, ¾ concordei.

      ...

      ¾ Eu não disse que não tinha ninguém? ¾ concluiu o Xarope.

      ¾ Então vamos embora, ¾ falei.

Capítulo CXXIX

      ¾ BONITO O SEU CARRO, vovô. Ei, esse rádio não é o original!

      ¾ Foi roubado, ¾ respondi.

      ¾ E você não vai colocar o original?

      ¾ Não. Enquanto o Quércia for Governador eu vou ficar com esse mesmo. Esse ninguém quer, ¾ conclui.

      Quando estávamos na Rebouças segui em direção ao túnel que dava na doutor Arnaldo.

      ¾ Ei, onde você vai? ¾ reclamou o Xarope. ¾ A Consolação é pra lá ¾ e apontou para a direita.

      ¾ Eu vou dar um pulo no Hospital das Clínicas, ¾ falei. ¾ Vou visitar um amigo.

      ¾ Legal, eu sou chegado em hospitais. O seu amigo está muito doente?

      ¾ Não, ele é médico, ¾ respondi.

      Chegando no HC estacionei o carro e fui direto ao assunto:

      ¾ Xarope, eu vou procurar o meu amigo e já volto. Em dois minutos eu estou aqui. Vê lá o que você vai aprontar, heim? Descola uma ficha para o estacionamento e tome conta do possante.

      Aprendi a conviver com o Xarope, não deixando que ele tomasse a iniciativa nos momentos importantes. É um pouco cansativo, pois você tem que ficar ligadão em tudo o que está acontecendo, mas vale a pena: o rapaz é legal. Jamais me disse um não.

      Entrei pelo 5.º andar do HC e cruzei com a recepcionista que me perguntou:

      ¾ Procura alguém?

      ¾ Sim, ¾ respondi, ¾ o doutor Arcon. A sala dele é logo ali.

      ¾ A essa hora ele deve estar no prédio dos Ambulatórios, esse amarelo à direita. Informe-se na sala 13.

      Alguns metros depois:

      ¾ Está vendo aquela porta branca?

      ¾ Sim, ¾ respondi.

      ¾ Um pouco à esquerda há outra porta com uma placa: Entrada Proibida. Entre lá que provavelmente você encontrará o doutor Arcon.

      ¾ Posso entrar mesmo? Não tem cachorro de guarda? ¾ brinquei.

      ¾ Não, ¾ sorriu, ¾ pode entrar sossegado.

      O Brasil é assim mesmo, pensei. É proibido proibir. As placas de proibição com o tempo acabam sendo objetos decorativos ou, mesmo, alegóricos.

Capítulo CXXX

      ¾ O DOUTOR ARCON acabou de sair para almoçar ¾ falou-me um funcionário do HC. ¾ Pode ser que o senhor o encontre na livraria da Faculdade.

      ¾ Obrigado.

      Pensei em procurá-lo. Mas enquanto me dirigia ao carro percebi que iniciara nova viagem às estrelas. O que será que vai me acontecer agora? Já está fazendo um ano que...

      ¾ Olá, vovô, encontrou o seu amigo?

      ¾ Não, mas agora eu vou atrás de outro, o Alemão ¾ falei assim que entrei no carro e dei a partida.

      ¾ E onde vamos?

      ¾ Eu vou só. Deixo você na Consolação e a seguir procuro pelo Alemão. Ele ficou de me arranjar uma nave espacial e hoje eu estou a fim de desvendar os segredos do Universo.

      ¾ Ei, vovô, acho que você está pinel. Pode me deixar na próxima esquina que eu vou a pé mesmo. Eu, heim?

Capítulo CXXXI

      QUANDO ME DEI POR achado estava estacionando o carro em frente à casa de Glorinha. Sequer tinha almoçado.

      O que é que eu vim fazer aqui? ¾ pensei. Mas prossegui decidido.

      ¾ Olá, doutor. ¾ Era o Rodrigo. ¾ Que bons ventos o trazem?

      ¾ A Glorinha está? ¾ perguntei enquanto procurava por algum assunto que justificasse a visita.

      ¾ Sim, ela acabou de almoçar e deve estar em seu quarto. Eu vou chamá-la.

      ...

      ¾ Padrinho! Pensei que o senhor ainda estivesse em Ilha Comprida.

      ¾ Cheguei ontem e resolvi ver como vai a criança.

      ¾ Vai muito bem. Não pára de me dar pontapé. ¾ E então mudou de assunto: ¾ Já terminei a leitura. Li mais de uma vez. Nem sei como agradecer, padrinho.

      ¾ Não agradeça. Foi uma promessa que fiz ao João. Tinha que cumpri-la.

      ¾ Pois o senhor tinha razão, ¾ falou Glorinha. ¾ Ainda não me conformei com imaginar João nos braços de Lucíola.

      ¾ Ainda é muito cedo para você aceitar, ¾ falei.

      ¾ Acho que nunca vou aceitar, ¾ emendou Glorinha. ¾ Não quero me libertar, padrinho.

      ¾ Não há porque se libertar, querida!

      ¾ Glorinha pareceu não me entender:

      ¾ O que disseste, padrinho?

      E muito menos eu. Não pensei em dizer nada, mas disse; e ouvi! E Glorinha também ouviu. Foi algo que saiu de dentro de mim e não sei como. Reconheci aquela voz, mas de onde? Senti que era  minha. Parecia pertencer ao meu... Sim, por um lapso de tempo fui tomado por meu inconsciente.

      ¾ Eu quis dizer que João está a sua espera, Glorinha.

      Novamente a mesma voz. E ao falar senti o desabrochar do inconsciente. Glorinha era muito mais do que a esposa de um amigo. Glorinha era... Era como se eu a conhecesse há muito tempo e uma afetividade muito grande nos unia; muito mais do que eu pudera imaginar.

      Glorinha calou-se, espantada, e eu continuei:

      ¾ João sofreu um processo de inversão temporal. Captou uma mensagem certa num momento errado. Sonho revelado, destino trocado, cruel é a lei.

      ¾ Não o entendo, padrinho.

      Nem eu, pensei. Enquanto falava era como se estivesse possuído pela sabedoria cósmica. Mas assim que deixava de falar voltava ao normal e sentia-me tão confuso quanto Glorinha, ou mais. Aquela voz... Sim, é isso mesmo, foi a voz que anunciou a Grande Batalha. E ela é minha!

      ¾ Glorinha, ¾ novamente fui possuído por aquela voz, ¾ não há por que se preocupar com o destino de João. Ele já cumpriu a missão a ele reservada e agora está a sua espera. Cumpra você a sua missão e o Paraíso será pequeno para vocês dois.

      ¾ E qual é a minha missão, ¾ interessou-se Glorinha.

      ¾ No momento criar o filho seu e de João, ¾ falei.

      ¾ E que me diz de Lucíola? ¾ perguntou Glorinha num momento de ansiedade e temor.

      ¾ Foi quando a voz se exasperou e tomou conta de todo o meu ser:

      ¾ Glorinha, minha irmã, será que você não percebeu que Lucíola é você?

 

   F i m

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