Espaço Científico Cultural

CHAMBERLAND E O PARAÍSO PERDIDO

 

3a. Parte - O Paraíso Perdido
capítulos CXIX CXXII

Capítulo CXIX

      DOMINGO, DIA 8, fui ao hospital logo após a prova da FUVEST. Rosalinda estava lá com João desde as dez horas. Glorinha fora almoçar com os pais e retornaria após o jantar.

      Assim que cheguei João convenceu sua mãe a ir embora, dizendo que precisava conversar a sós comigo. E assim que Rosalinda saiu, João falou:

      ¾ Meu fim está próximo, Mestre. Preciso de sua ajuda.

      ¾ Voltaste a delirar, João?

      ¾ Não, estou falando sério. Você está disposto a me ajudar?

      ¾ E o que eu tenho que fazer?

      ¾ Executar a minha missão, ¾ disse João.

      ¾ E qual é a sua missão? ¾ perguntei.

      ¾ Decifrar o enigma do Apocalipse e...

      ¾ Pois então já a realizaste!... Ou não? Está faltando alguma coisa?

      ¾ Sim, divulgar a minha descoberta.

      ¾ E como é que você quer que eu faça isso? Indo ao programa do Sílvio Santos ou do Ferreira Neto? Não, João, não me peça isso. Eu não tenho vocação para pastor. Como é que eu vou sair por aí pregando o fim dos tempos?

      ¾ Eu ainda não sei ao certo, ¾ respondeu João sem perder o controle. ¾ Precisamos pensar e isso tem que ser rápido. Como eu disse, meu fim está próximo e você vai me ajudar.

      Quando Glorinha chegou resolvi deixar os pombinhos a sós. João, na presença de Glorinha, comportava-se como um recém-casado e eu procurei não entender mais nada.

      Ao sair prometi a João que retornaria dia 11, logo após o último exame da FUVEST. E ele se despediu com um pedido:

      ¾ Traga a cópia da sua redação. Eu quero ver como você anda escrevendo ultimamente.

Capítulo CXX

      AQUELA CONVERSA me deixou chateado. Como eu poderia recusar o pedido de um amigo? Mas logo me recompus. Não, o João não é suicida nem tem poderes paranormais para tanto. A morte é algo que escapa à nossa vontade. A não ser...

      Lembrei-me de um episódio, há muito tempo atrás. O paciente era um rico industrial. Recebi o plantão e me parece que foi o Praxedes quem falou: O Fulano de Tal está muito bem. Acho que amanhã cedo poderá ter alta da UTC.

      Estava ainda nos momentos iniciais do plantão, fazendo os exames clínicos de reconhecimento, quando chegou a vez do Fulano de Tal e concordei: seu estado é ótimo. Foi quando ele falou:

      ¾ Não adianta fazer nada, doutor, eu já resolvi que vou morrer.

      Precisei me segurar para não dar uma gargalhada. E foi então que ele me contou sua história:

      ¾ Eu sou um inútil. Meus filhos julgam-me um velho esclerosado e me tomaram o poder. Não tenho forças para lutar com eles. Nada me resta fazer, logo resolvi morrer. Deixarei de ser um peso para eles.

      Senti pena daquele pobre homem. Tentei consolá-lo, demovê-lo de seu propósito, mesmo achando absurdo ou impossível que conseguisse chegar ao objetivo. Mas ele estava muito predeterminado e falou:

      ¾ O senhor é a última pessoa com quem eu falo e sinto que tem bom coração, pois ainda me ouve. Mas eu lhe peço: não faça mais nada por mim; será inútil.

      E dito isso o Fulano de Tal calou-se e até o final do plantão não pronunciou mais uma só palavra.

      No dia seguinte, como seu estado era excelente, dei-lhe alta. Soube, posteriormente, que manteve o seu mutismo no quarto do hospital. Uma semana após, e de forma inexplicável, ele teve uma recaída e retornou para a UTC no meu plantão. Examinei-o e não descobri nada que justificasse a piora do estado clínico. Seu médico particular acompanhou-me no exame e parecia também não entender o motivo da recaída. Meia hora depois o Fulano de Tal morreu. Lembro-me ainda de seu olhar. Era como de quem dissesse: está perdendo o seu tempo, doutor.

      João estava me parecendo o Fulano de Tal. Com uma diferença importante: João tinha 18 anos de idade e o Fulano de Tal, 82. Não, pensei, é impossível o João conseguir uma morte psicológica, se é que isso existe.

      Lembrei-me ainda do meu pai. No segundo semestre de 1978 achei que ele estava definhando sem motivo aparente. Comecei a freqüentar com maior assiduidade a sua casa e percebi que meus irmãos estavam em briga pelo poder. Convidaram-me a participar de uma reunião e, nessa reunião, os que estavam contrários às suas idéias tentaram me convencer que meu pai merecia uma aposentadoria. Julgaram-no muito doente e concluíram que se ele não parasse de trabalhar não chegaria vivo até o Natal.

      Num dado momento, e após muitas discussões, pedi a palavra. Tentaram me ignorar e então esperei que se desgastassem. Quando por fim consentiram com que falasse, levantei-me e, após um discurso inflamado de vinte minutos, clamei: devolvam o que vocês lhe tiraram e eu rasgarei o meu diploma o dia em que ele morrer.

      Onze Natais já se passaram e meu pai, aos 80 anos, está comandando a ampliação de seu império. Animado, lúcido e, excetuando-se pequenos probleminhas próprios à idade, vendendo saúde. E o meu diploma está empoeirado, porém inteiro.

Capítulo CXXI

      NO DIA 11 CUMPRI o prometido. Terminei o último exame da FUVEST e fui direto para o hospital. Encontrei Glorinha e Rosalinda com João, e João parecia muito alegre.

      ¾ Trouxeste a redação? ¾ falou.

      ¾ Sim, aqui está.

      ¾ E qual foi o tema? ¾ perguntou.

      ¾ Está nesta folha, veja, ¾ e passei a folha de questões para João. E João leu:

REDAÇÃO: Tudo vale a pena
                     Se a alma não é pequena.

Discuta as idéias contidas nos versos acima, confrontando-as com o momento que vivemos hoje no Brasil

      ¾ Não foi fácil, ¾ falou João. ¾ E onde está o que você escreveu?

      ¾ Está aí, a lápis, numa das páginas em branco.

      ¾ Sim, achei. Deixe-me ver.

 

Vamos em frente!

     Hoje eu estou aqui, prestando vestibular. Quem sabe me abram as portas da Faculdade. Eu sei que é difícil, mas alguém tem que entrar. Mas... para quê?

Realmente o Brasil já está cheio de donos: não há lugar para mais um. Estudo? Bah! Quantos desses salafrários realmente estudaram? E até que ponto esse estudo foi mais importante que seus códigos genéticos?

Mas será que é apenas o poder que importa? Talvez não. Ainda hoje li, na Folha de São Paulo, a afirmação de um cientista japonês laureado com o prêmio Nobel em 1987: "O Brasil deve investir mais em pesquisa básica e menos em ciência aplicada." O que é uma grande verdade. Só não a enxergam os salafrários a que me referi acima.

Pesquisa básica me lembra ciência pura; e ciência pura me lembra lazer, liberdade e amor.

Vamos em frente! Vale a pena passar a limpo a redação. Sim, tudo vale a pena se a alma não é pequena.

 

.
      ¾ Gostei! ¾ exclamou João. ¾ Está parecendo que foi feita por um jovem de dezoito anos.

      ¾ Eu também achei isso. Mas foi bom. Se eu dou pinta de coroa o examinador pode não me entender. Afinal, ele não sabe a minha idade. Assim eu acho que ninguém pode reclamar.

      ¾ Você nunca pensou em escrever um conto, ou um romance? Eu acho que você leva jeito.

      ¾ Não, João, agora eu só quero é terminar o curso de Física.

      ¾ Está tão confiante assim?

      ¾ E porque não? O exame já acabou e eu fui bem.

      Neste momento Glorinha disse que ia até a lanchonete com a Rosalinda. Nem bem ficamos sós, o João se modificou. Adotou aquele ar sério e falou:

      ¾ Pensou em alguma coisa, Mestre?

      Chegou o momento que eu temia. O silêncio desabou sobre nós. A incerteza de um lado; a espectativa de outro. E em meu cérebro borbulhavam palavras que não se encaixavam. Por fim, falei:

      ¾ Estás certo do que pedes, João?... Entendo o teu problema, tuas preocupações... e... louvo teu despreendimento,... tua solidariedade. Mas... é isso mesmo o que queres? Acreditas realmente... que esta é a tua missão?... Quem te a reservou?

      O vértice da questão se me escapava e os minutos pareciam horas. Mas à medida que discorria ganhava confiança e as palavras se entrelaçavam com mais firmeza.

      ¾ Estás enfermo, João, não cries mais problemas que os que já tens. Deixa que o mundo por si complete suas voltas. Para que queres que eu cumpra tua missão? Para que possas morrer em paz? Liberta-te, João, teu drama é uma farsa. Despojes esta fé que te atormenta. Não fujas à luta.

      De nada adiantou minha eloqüência. João parecia cada vez mais distante. Seu interesse inicial ia se dissipando.

      ¾ Se acreditasse no que crês, sabes que nome daria ao que me pedes?... Eutanásia, ¾ sintetizei em tom desesperador o que me apoquentava.

      ¾ O que dizes tem muito de verdade, Mestre,... mas... não me entendes. ¾ E balbuciando essas palavras João adormeceu.

Capítulo CXXII

      VOLTEI A VISITAR João no dia seguinte à tarte. À noitinha eu iria viajar para Ilha Comprida e só voltaria segunda-feira, dia 16. Cheguei à conclusão, então, de que era chegado o momento de encerrarmos nosso assunto.

      Estava ainda em dúvida, porém menos melodramático. Algo me dizia que tinha sido injusto com João; só não entendia como. Porque não concordar com ele, pensei? Afinal, eu não acredito que ele consiga morrer. Por outro lado, sua missão me atormentava. Como sair por aí pregando suas idéias? E, no entanto, o desespero de João se acentuava.

      Quando cheguei João estava sozinho, pensativo, prostrado em seu leito. Nem bem entrei, ele falou:

      ¾ E então, Mestre, resolveu entregar os pontos?

      ¾ Ainda não sei, João.

      ¾ Decida-se logo, Mestre, minha hora está chegando. Não podemos prosseguir indefinidamente com essa batalha.

      ¾ Você falou batalha? ¾ perguntei.

      ¾ Sim, Mestre, está sendo uma grande batalha convencê-lo. Pensei que seria mais fácil.

      Ora, como não pensei nisso antes? O que João me pede é que aceite o grande desafio, que enfrente a Grande Batalha. Não posso fugir a essa luta, é preciso tomar o atalho.

      Nesse preciso momento a voz de João ficou mais grave e mais fraca e ele murmurou:

      ¾ Acho que estou morrendo, Mestre, Lucíola está vindo me buscar.

      ¾ Não, João... ¾ e o desespero deixou-me sem palavras.

      ¾ Sim, é chegada a hora ¾ acrescentou João. ¾ Promete que cumprirá minha missão?

      ¾ Sim, mas não me pergunte como. Eu ainda...

      ¾ Porque você não escreve um romance?

      E dizendo essas palavras João sorriu e morreu.

   * * * * *

Fim da 3.ª parte

A seguir: Epílogo

 

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Epílogo

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