Espaço Científico Cultural

CHAMBERLAND E O PARAÍSO PERDIDO

 

3a. Parte - O Paraíso Perdido
capítulos CXII CXVIII

Capítulo CXII

      DOMINGO À TARDE passei pela sala de espera defronte à UTC e encontrei Rosalinda, Aninha e Glorinha. Cumprimentei-as  e estava prestes a entrar quando Glorinha se adiantou:

      ¾ Doutor.

      ¾ Sim!

      ¾ Posso roubar-lhe um tempinho?

      ¾ É pra já, Glorinha, sou todo ouvidos. ¾ E dispus-me a sentar.

      ¾ Eu prefiro que seja a sós, ¾ falou Glorinha.

      ¾ Sei... Você já está de saída?

      ¾ Não, eu estou com a dona Rosalinda, coitada, ela anda tão triste. O seu Francisco vem nos apanhar às 6 horas.

      Olhei para Rosalinda e pareceu-me que ela envelhecera dez anos. Não era a mesma que conheci.

      ¾ Então, Glorinha, eu vou ver o João e na saída nós vamos à lanchonete da Beneficência. Quem sabe eu possa trazer uma boa notícia lá de dentro.

      Pensei na alta de João para a enfermaria, prevista para o dia seguinte.

      ¾ Está ótimo, doutor. Até mais.

Capítulo CXIII

      ¾ OLÁ MESTRE, que bom que você veio. Isto aqui está cheirando a velório. Só a Sílvia conversa comigo e as visitas são tão curtas e restritas que...

      ¾ Acho que amanhã isso vai acabar, ¾ adiantei-me, ¾ você está para ter alta da UTC.

      ¾ E eu já vou para casa? ¾ perguntou João todo animado.

      ¾ Não, você irá para a enfermaria. Mas lá poderá ter um acompanhante em seu quarto.

      ¾ Já é alguma coisa, ¾ alegrou-se João. ¾ então vamos falar de Lucíola...

      ¾ Era o que eu temia, ¾ acrescentei.

      ¾ Você está achando que estou pinel, não é?

      ¾ Para ser sincero, sim, mas eu me dou bem com os doidos. Vamos lá.

      João contou-me sua fantasia. Vivemos em Chamberland e, em outra dimensão, como se fora do outro lado do espelho, permanecemos entre uma vida e outra, aguardando o retorno para Chamberland; sempre com uma missão que nos aperfeiçoe.

      ¾ Lucíola está lá, a minha espera, ¾ continuou João, ¾ e esta foi a nossa última encarnação. Não há mais como retornar, pois Chamberland está com os seus dias contados. De lá iremos para o Paraíso Perdido.

      ¾ Isso está me cheirando a espiritismo, João.

      ¾ E, com efeito, assim é, Mestre. Eu psicografei o Espelho Mágico. Foi Lucíola quem o compôs.

      ¾ E para que ela lhe enviou uma mensagem?

      ¾ Para prevenir-me do acidente de moto.

      ¾ Mas ela não está a sua espera? Seria mais prático deixá-lo morrer.

      ¾ Sim, mas eu ainda não concluí a minha missão. Só após isso poderemos ir para o Paraíso. E desta forma ela não só enviou a mensagem como também me salvou do acidente. Lucíola é minha esposa celestial; convivemos há muitas gerações. E você também nos acompanha. Lucíola é sua irmã. Pertencemos à mesma família.

      ¾ E que me diz de Glorinha? Ela está lá fora, chorando por você.

      ¾ Eu sei, Mestre, mas nosso amor é impossível. Eu vou morrer.

      ¾ Isso é loucura, João, você está ótimo e amanhã vai ter alta da UTC. E que me diz da sua missão?

      ¾ Eu sei que estou ótimo, mas não será por muito tempo. Só uma coisa me prende a Chamberland e você, caro cunhado, é quem vai me libertar.

Capítulo CXIV

      ¾ GLORINHA, querida, você está triste hoje... Está chorando! Ora, minha filha, o que é que houve?

      ¾ Nada, mamãe, ¾ respondi, ¾ apenas recordações.

      ¾ Faz tempo que não a via assim. Deixe esse livro de lado e vamos jogar um buraco. O doutor Eurico quer que você se alimente bem e se divirta.

      ¾ Eu já vou, mamãe, ¾ concordei. ¾ Eu vou me arrumar e enquanto isso a senhora prepara a mesa.

      Não eram só recordações. Aquele capítulo me deixara realmente triste, como previra o padrinho. Em vão supliquei: Não me liberte, João. Se foi pouco o meu sofrimento, entristeça-me mais, mas não me liberte.

      ...

      ¾ Bati, mamãe.

      ¾ É, você venceu. Hoje não é meu dia de sor... Valeu por esse sorriso. Gosto de vê-la assim.

Capítulo CXV

      ¾ PRONTO, GLORINHA, vamos?

      ¾ Antes a boa notícia, doutor, cobrou-me.

      ¾ João terá alta da UTC terça-feira. Pensei que seria amanhã, mas acho que vão submetê-lo a novos exames.

      ¾ De qualquer forma é uma boa notícia, ¾ falou Glorinha. ¾ Estou ansiosa por vê-lo. Vou contar a novidade para a dona Rosalinda e depois nós vamos.

      Na lanchonete:

      ¾ Doutor, ¾ adiantou-se Glorinha, ¾ não sei por onde começar.

      ¾ Então deixe que eu começo por você. Garçom: dois X-maioneses, uma coca e meia cerveja. Pronto, eu já comecei; agora é sua vez.

      Glorinha sorriu e criou coragem. Antes dos sanduíches chegarem eu já sabia o que a atormentava: Glorinha esperava um filho de João. E a pobrezinha, no momento mais importante de sua vida, estava só no mundo, sem sequer conseguir expor o problema ao namorado.

      ¾ Já não sei o que fazer, doutor. Pensei em contar para a mamãe, mas não tive coragem.

      ¾ O Rodrigo já sabe?

      ¾ Não.

      ¾ Então não faça nada. O primeiro a saber tem que ser o João. Depois daremos um jeito. Você pode vir aqui amanhã à tarde?

      ¾ Sim, eu peço para o Rodrigo me trazer.

      ¾ Então será amanhã. Sairei mais cedo do Cursinho. Às cinco está bom?

      ¾ Sim.

      ¾ Então está combinado.

Capítulo CXVI

      CHEGUEI MEIA HORA mais cedo que o combinado e expus os fatos a João. Receei que ele voltasse a falar em Lucíola, mas João me surpreendeu:

      ¾ Então só nos resta marcar o casamento.

      ¾ Ora viva! A Glorinha vai ficar linda de branco! Logo você tem alta e...

      ¾ Mestre, acho melhor eu me casar aqui no hospital mesmo.

      ¾ Então vou falar com Francisco para providenciar os papéis. Bem, antes vou ter que enfrentar os pais da Glorinha.

      ¾ É melhor que seja logo. Não sei se vou escapar dessa.

      ¾ Ora, João, que bobagem... Sim, eu acho que é uma boa idéia; a Glorinha já está no quarto mês.

      Olhei o relógio e acrescentei:

      ¾ Por falar nisso, eu trouxe uma surpresa para você. Espere um pouco.

Capítulo CXVII

      PASSADOS DEZ MINUTOS que Glorinha entrou, lá vinha a Norma, em passo de marcha, pelos corredores da UTC, em direção à Sílvia.

      ¾ Sílvia, o tempo está esgotado.

      ¾ Ora, chefa, dá só mais dez minutos, vai. Eles parecem dois pombinhos; estão até de mãos dadas.

      ¾ A lei foi feita para ser cumprida.

      A Norma tinha vocação para militar. Não discutia ordens médicas e não admitia a intromissão de subalternos em seus assuntos, quando em comando. Aquele dia até que estava de bom humor, caso contrário não gostaria de estar na pele da Sílvia; talvez tenha respeitado seus cabelos brancos. Mas a Norma tinha também seus pontos fracos e eu conhecia alguns. Procurei me aproveitar disso.

      ¾ Norma... ¾ falei em tom enérgico, aproveitando que o Thales estava ao meu lado.

      ¾ Sim, doutor ¾ e quase prestou-me continência.

      Abrandei a voz:

      ¾ Eu acho que isso vai dar em casamento. Que tal darmos mais dez minutos?

      ¾ O doutor Thales é quem sabe...

      ¾ Vamos fazer o seguinte ¾ interrompi-a e pisquei para a Sílvia, no momento em que Norma aguardava a manifestação do Thales. ¾ Damos mais dez minutos e se eles não casarem você ganha uma caixa de cervejas.

      A Norma olhou novamente para o Thales, que não disse que sim nem que não; apenas postou-se em copas para ver no que iria dar. Após alguns segundos de reflexão, encorajou-se e me perguntou:

      ¾ Sim, mas quanto tempo vou ter que esperar pela minha cerveja?

      A Norma não é nada trouxa, pensei.

      ¾ Um mês está bom? ¾ perguntei.

      ¾ Negócio fechado, ¾ respondeu apressadamente e saiu.

      ¾ Eu acho que você vai perder, ¾ falou o Thales enquanto Norma se dirigia ao seu quartel.

      ¾ É possível, mas os pombinhos valem uma caixa de cerveja, veja lá, ¾ e apontei para o quarto de João. ¾ E além disso, eu tenho meus trunfos; sei esconder uma carta nas mangas quando necessário.

      E continuamos conversando sobre os áureos tempos.

Capítulo CXVIII

      NO DIA 5 DE JANEIRO de 1989, uma quinta-feira, Glorinha e João se casaram no civil e no religioso. Foi uma cerimônia simples. Presentes apenas os pais dos noivos, os irmãos e eu. Um pouco antes Isabel fez uma pergunta que nos apavorou:

      ¾ Quem serão os padrinhos?

      ¾ O Mestre vai ser o padrinho, adiantou-se João, mas a madrinha... eu não sei.

      Estava quase sugerindo a Aninha quando Glorinha falou:

      ¾ Que tal a Sílvia? Você concorda, João?

      ¾ Sim, bem pensado, ela é muito dedicada.

      ¾ E tão boazinha, ¾ acrescentou Glorinha.

      ¾ Então só falta ir buscá-la. Eu faço isso, ¾ falei.

      Não foi difícil convencê-la, pois a Sílvia gostava muito do João. E desta forma eu e a Sílvia fomos os padrinhos do noivo e da noiva, concomitantemente.

      Terminada a cerimônia cumprimentamos os noivos e nos despedimos. Quando estava próximo ao elevador, falei para a Sílvia:

      ¾ Bela lua de mel; num quarto de hospital!

      ¾ Sim, ¾ respondeu, ¾ mas eles estão tão felizes que nem notaram.

 

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