Espaço Científico Cultural

CHAMBERLAND E O PARAÍSO PERDIDO

 

3a. Parte - O Paraíso Perdido
capítulos CIV CXI

Capítulo CIV

      O ARCON, CARO LEITOR, é outro amigão. Além de trabalharmos juntos na Beneficência, o Arcon foi colega de pós-graduação. Sujeito inteligente, meu! E como você já deve ter adivinhado, ele também leu os meus livros. Só que agora você vai cair do cavalo. Pasme, leitor, acho que ele entendeu tudo.

      Da penúltima vez que encontrei o Arcon ele veio empolgadíssimo comentar um dos meus livros. Estou quase no fim, disse ele. Precisamos marcar um papo para esclarecer algumas dúvidas e apontar pequenos detalhes com que não concordei. E eu tenho também alguma coisa a acrescentar a sua teoria.

      Até que enfim alguém nesse mundo me compreendeu, pensei. E fiquei ansioso por esse encontro. Quem sabe eu consiga entender o que escrevi. Porém a única vez que o encontrei, após esse diálogo, foi muito rápida; nós dois estávamos com pressa. Depois disso, e já vai pra mais de dois anos, o Arcon sumiu. Ou teria sido eu?

Capítulo CV

      NO DIA SEGUINTE, à tarde, voltei ao hospital. Era um domingo e lembro-me de que encontrei o Simão todo animado com o último relatório médico. João havia recobrado a consciência.

      Entrei e encontrei João em quarto separado, embora ainda na UTC. Mais isso, por si só, já era um sinal de melhora; ou então de enfermaria superlotada, o que não era o caso.

      ¾ Olá, João, como vai? ¾ ensaiei um contato.

      ¾ Mestre?

      ¾ Sim...

      ¾ Vejo que trouxeste a Bíblia que pedi, caro cunhado. Conversei com sua irmã, por telefone. Não vejo a hora de me encontrar com ela. Preciso de sua ajuda para transpor o abismo. Lucíola me disse que você não irá decepcioná-la.

      Joao delirava. Cunhado? Minha irmâ? Telefone? Abismo? Lucíola? Realmente houvera levado a Bíblia, mas... Vejo? Seus olhos estavam enfaixados!

      De uma coisa ele estava certo: precisava de minha ajuda. Ardia em febre. Chamei o médico, tomei um café na enfermaria, elogiei o penteado e a toca da Norma, a enfermeira chefe, e saí para fumar.

      ¾ Como está ele, doutor? ¾ Rodrigo me interpelou.

      ¾ Com um pouco de febre. Nada grave, espero.

      ¾ Conhece Glorinha?

      ¾ Segundo João, uma gata. Tem bom gosto o rapaz. Muito prazer.

      Glorinha corou e, só então, percebi a mancada. O clima não era propício para brincadeiras.

      Não conseguia mais me adaptar aos contrastes. Do lado de lá, entre colegas, risos, brincadeiras e uma indiferença profissional e necessária às desgraças reinantes. Do lado de cá... choro e vela. Quantos velórios não começaram aqui? Estava fora de forma como médico, enferrujado mesmo.

      Fui salvo pela saída do plantonista. Corri a seu encalço.

      ¾ Então, ¾ perguntei.

      ¾ Nada de tão grave. Febre de origem central. Já foi medicado. Ah, dei-lhe também um calmante. Dormirá até amanhã.

      ¾ Grato. Dê um abraço no Arcon amanhã cedo, por mim. Não consegui vê-lo ainda. Obrigado mais uma vez.

      ¾ De nada. Tchau.

      Rodrigo e Glorinha acompanharam atentamente o diálogo. Ao término voltaram rapidamente a seus postos e permaneceram calados.

Capítulo CVI

      É VERDADE. O padrinho me deixou desconcertada. E justo naquele dia! Senti um certo alívio quando cheguei e o Simão me disse que ele estava lá; e fiquei ensaiando as várias formas de abordá-lo e expor o meu problema.

      E com poucas palavras ele me desencorajou. Mas não fiquei chateada, não. Afinal, ele parecia gostar tanto do João, e o João dele, que eu achei até natural o que dissera. Foi bom ter lido isso. Agora entendo melhor o porquê de sua mancada.

Capítulo CVII

      QUARTA-FEIRA, após a aula de Inglês, voltei ao hospital. Hoje eu encontro o Arcon, pensei durante o trajeto.

      ¾ Se continuar assim, logo ele tem alta para a enfermaria, ¾ falou o... Luiz Fernando!

      Não era o Arcon. Os dois haviam trocado o plantão. E isso se repetiu: um dia era o Carlos, outro o Alexandre, depois o Zé Luiz ou algum outro dos médicos que você já conhece, isso quando não era um plantonista desconhecido.

      Mas o principal era o estado de João: excelente. Apenas um senão: deixei de ser o Coroa e voltei a ser o Mestre.

      ¾ Olá, Mestre, estava ansioso pela sua visita.

      João estava sério e, logo de início, pressenti que iríamos descambar para o misticismo; e deixei o barco correr, mesmo porque não havia mais por que me preocupar com o vestibular de João.

      João narrou os fatos que antecederam o acidente e eu procurei demonstrar interesse por tudo que dizia. Para ser sincero, eu estava bastante curioso. Soube de sua euforia com o que descobrira e perguntei:

      ¾ E então, João, qual foi a grande descoberta? Que enigma decifraste?

      ¾ Quem tiver inteligência, calcule o número da fera, porque é o número de um homem, e esse número é seiscentos e sessenta e seis.

      ¾ Mas esse é o enigma do Apocalipse! ¾ exclamei assustado. ¾ Você o decifrou?

      ¾ Sim, não tenho dúvidas quanto a isso, ¾ falou num tom de voz que quase me convenceu. ¾ O homem é Sir Isaac Newton, o pai da ciência moderna e sacerdote-mor da religião dos últimos tempos.

      João não estava com febre e desta vez não parecia delirar. Alguma coisa me levou momentaneamente do Apocalipse ao Gênesis: a árvore do bem e do mal é também chamada árvore da ciência. Será que isso tem alguma coisa a ver com as idéias de João? Mas porque Newton? Porque não Copérnico, Galileu, Descartes ou mesmo Einstein? E então João respondeu aos meus pensamentos.

      ¾ Muitos foram ou são os Anticristos, mas o principal foi Newton.

Capítulo CVIII

      PROCUREI NÃO contrariar João, mas não me contive:

      ¾ João, você não acha que são muito poucas as evidências que possui? Ainda não consegui me convencer. Acho seus dados pouco consistentes.

      ¾ Eu ainda não disse nada, Mestre, ¾ e João sorriu. ¾ Aprendi com você a esconder os trunfos.

      E foi então que João apresentou uma a uma as peças do quebra-cabeças que montara. Começou com os mil anos, o período bíblico em que Satanás ficou trancafiado a sete chaves, ou o período da primeira ressurreição:

Eles viveram uma vida nova e reinaram com Cristo por mil anos.

Lembrei João que no ano mil muitos se iludiram com essa profecia bíblica e, no entanto, nada aconteceu.

      ¾ Sim, Mestre, ¾ concordou João, ¾ eles cometeram dois erros de cálculo: em primeiro lugar, não souberam calcular o início dos mil anos; e, em segundo, não interpretaram corretamente o seguinte trecho:

Depois desses mil anos é preciso que Satanás seja solto por um pouco de tempo.

      Perguntei-lhe quais eram as datas corretas e ele respondeu:

      ¾ É simples. Está na Bíblia. O início coincide com a queda da Babilônia. Mas não é a cidade, pois que esta é simbólica e significa luxúria. Trata-se da grande meretriz, aquela que reinou sobre os reis da terra, ou seja, a ciência antiga. E foi a época em que o cristianismo vingou, pouco após o Édito de Milão, 313; e também coincide com o que os livros de História da Ciência chamam de início da grande noite, os mil anos em que a ciência praticamente estacionou. Não há como estabelecer um ano exato, mas tudo indica que foi por volta de 333.

      E após uma pequena pausa, João continuou:

      ¾ O término dos mil anos coincide com a decadência do cristianismo e o desabrochar do Renascimento. É a época em que surgiram os antipapas; foi quando o abuso dominou a Igreja Cristã; e isso culminou nos dias atuais, em que existe uma religião cristã para cada conveniência. E é também a época dos padres ateus.

      Nova pausa em que João parecia esperar algum comentário de minha parte sobre os padres ateus, mas permaneci calado, à espera do desfecho que senti estar próximo. E então João prosseguiu.

      ¾ O reinado de Cristo durou realmente mil anos, de 333 a 1333, e o de Satanás durará dois terços de mil: seiscentos e sessenta e seis. Some 333 a 1000, adicione ao resultado 666 e você obterá 1999, o ano profetizado por Nostradamus para o final dos tempos.

      ¾ Fantástico! ¾ exclamei, ¾ mas onde você encaixa Newton?

      ¾ Qual é a média entre 1333 e 1999? ¾ perguntou João.

      ¾ 1666, ¾ respondi.

      ¾ Pois 1666, ¾ falou João, ¾ é o clímax do império satânico. Foi o ano da peste negra e também o ano das grandes descobertas de Newton que resultaram na ciência moderna. E há também a história da maçã, o fruto da árvore proibida, ou a árvore da ciência, e que alegoricamente é considerada a responsável pela principal das descobertas newtonianas.

      A essa altura o Luiz Fernando entrou no quarto de João e perguntou se eu não queria ir lanchar com ele.

      ¾ Sim, vamos, ¾ falei, ¾ acho que já abusei da sua hospitalidade; e também estou com saudades da lanchonete lá de baixo.

      Com efeito, passava de meia-noite. Mas ao invés de me despedir de João, acrescentei:

      ¾ Um momento, Luiz Fernando, deixe-me fazer apenas mais uma pergunta ao João.

      ¾ João, qual foi o ponto crucial de sua descoberta? Quero dizer, o estopim... o insight. Sim, o que lhe provocou o insight? Não foi a aula do Álvaro, foi?

      ¾ Não, embora ela tenha preparado meu espírito. O que mexeu comigo foi um trecho do livro que você me deu:

Isaac Newton nasceu em 1642...
...Em Woolsthrope, a 25 de dezembro.

Capítulo CIX

      ¾ PAPAI, O SENHOR precisa ler este trecho a respeito de João. Ele deve ter tirado as idéias centrais dos seus livros.

      ¾ Deixe-me ver, Glorinha.

      ¾ Enquanto papai lia, fui até a cozinha conversar com a mamãe que no momento instruía a empregada sobre a arrumação da mesa. Ao voltar papai já havia lido os dois capítulos e dava uma olhadela nos demais.

      ¾ Bonita esta poesia, O Espelho Mágico, ¾ falou. Não sabia que o João era poeta.

      ¾ Sim, era. E o que achaste do Apocalipse segundo João? ¾ falei. E enquanto me surpreendia com o trocadilho que fizera inconscientemente, papai respondeu:

      ¾ O doutor escreve  bem e o João realmente me surpreendeu. Existem aqui conhecimentos de História, da Bíblia, de História da Ciência...

      ¾ E ele vivia lendo os seus livros também, acrescentei.

      ¾ Sim, mas não acredito que tenham sido importantes. Talvez tenham acrescentado alguns detalhes, mas pelo que notei o misticismo residia em João.

      ¾ E o que me diz sobre a decifração do enigma? ¾ perguntei. ¾ O senhor acha...

      ¾ Ele soube juntar as peças do quebra-cabeças. Resta saber se montou do lado certo, ¾ concluiu papai deixando um certo suspense no ar.

      ¾ Querida, o almoço está servido. ¾ Era a mamãe que viera nos chamar.

Capítulo CX

      DESPEDI-ME DO Luis Fernando e fui para casa com as idéias me atormentando.

      O que será que habitava o cérebro de João no dia do acidente? Lembrei-me da conversa que tivemos no início de setembro e um frio percorreu-me a espinha de alto a baixo. Foi no dia que resolvi tirar o sarro do João. Com isso bloqueei nossos canais de comunicação, deixando João sozinho com seus problemas. Quem sabe se eu tivesse dado uma força isso tudo não teria acontecido.

      Bobagem, refleti com meus botões. João teria ficado tão ou mais ansioso em me contar sua descoberta. Não, não há como modificar o destino.

      Nos dias que se seguiram tentei, para mim mesmo, enfraquecer os argumentos de João. Não podia acreditar. Afinal... eu também sou um cientista; e João estava se encaminhando para tal.

      Na quinta-feira não consegui prestar atenção à aula do Ponce. Felizmente era recordação de trigonometria. Pensei em Einstein, o vovô de minha geração, o velhinho que nos mostrava a língua, sempre com um sorriso nos lábios, irradiando simpatia, bondade e até mesmo fé em Deus. Não! Não podia acreditar fosse, tão bom e humano ser, mais um dos Anticristos. E nem mesmo Newton, a despeito da aula do Álvaro. O Newton era meio ranzinza sim, mas em sua teoria ele como que procurava demonstrar que Deus existe:

O espaço é o sensório de Deus.

      E foi então que, entre senos e cossenos, o Ponce se aproximou de mim e perguntou:

      ¾ Que me diz do João?

      Quase respondi: Fantástico, magnífico, sensacional. Mas me contive e disse:

      ¾ Está bem melhor. Acho que dessa ele já escapou.

      No dia seguinte prossegui a busca infrutífera de contra-argumentos. E o máximo que consegui foi acidionar pequenos detalhes desprezados por João: a idade de Cristo, 33, e os anos 333 e 1333; a preocupação de Newton com o Apocalipse; a excessiva pregação da paz como sinal dos últimos tempos; e... Não! João está anunciando o retorno do Cristo?

      Coincidência, bobagem, pensei. João Batista é um nome muito comum.

Capítulo CXI

      ¾ NO SÁBADO, dia 17 de dezembro, João estava alegre e menos misterioso. Quase não nos referimos à conversa de quarta-feira. O assunto inicial foi a primeira fase do vestibular da FUVEST e em nenhum momento ouvi qualquer lamentação de João sobre sua perda. Sua preocupação maior era comigo e quando lhe contei a pontuação que obtivera sorriu e acrescentou:

      ¾ Eu sabia que você não iria me decepcionar.

      Perguntou-me então de Glorinha. E quando lhe contei o episódio de nosso encontro, desatou a rir e brincou:

      ¾ Você não presta mesmo, não?

      A seguir ficou sério. Quando eu menos esperava, João surpreendeu-me com a pergunta:

      ¾ Sabe que estou vivo graças a Lucíola? Há três dias que estou ensaiando como lhe contar...

      ¾ Ora, João, comigo não tem frescura, conta logo.

      João hesitou. Foi quando achei chegado o momento de questioná-lo sobre seu delírio da semana passada. E isto serviu para encorajá-lo.

      ¾ Lembra-se da minha poesia, O Espelho Mágico?

      ¾ Como poderia esquecer? Foi um sucesso no cursinho!

      ¾ Pois é! Lucíola existe. Falei com ela estes dias. Ela tentou evitar meu acidente. No momento crítico eu a vi e a reconheci. Não sei o que ela fez, mas lembro-me de que logo após o acidente estava com a cabeça no colo dela. Estou vivo graças a ela, pois caso contrário teria ido de cabeça contra a guia.

      João parecia lúcido, mas alguma coisa não ia bem. Delirava conscientemente, se é que isso é possível. Afinal, Lucíola houvera sido um produto de sua imaginação estudantil; como poderia estar se tornando real? E que história era essa de ter sido salvo por ela? E reconhecera-a de onde? Da infância? Será que Lucíola existiu?

      Senti que ele precisava mais de um psicólogo do que de mim. Pensarei nisso tão logo melhore. João continuou:

      ¾ Lucíola vive pra lá de Chamberland, no Paraíso Perdido.

      ¾ Certo, João, amanhã continuamos. O doutor Ramires está me olhando lá de fora com ar de reprovação. Você não deve se esforçar em demasia. Sossegue. Se Lucíola lhe salvou é porque ela quer que permaneça vivo. Procure descansar.

      E, com efeito, sábado era dia de visitas. Logo João iria receber seus pais e eu já estava cansando-o. Na saída soube pelo Ramires que provavelmente João teria alta da UTC segunda-feira. Ele ainda estava lá a pedido da equipe neuro-cirúrgica.

 

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Capítulo CXII 

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