Espaço Científico Cultural

CHAMBERLAND E O PARAÍSO PERDIDO

 

3a. Parte - O Paraíso Perdido
capítulos LXXXV a XCIV

Capítulo LXXXV

      ¾ O DOUTOR JÁ se foi, Glorinha? ¾ era a minha mãe que acabava de entrar na sala.

      ¾ Sim, mamãe.

      ¾ Oh, que pena! Pensei que ele fosse demorar mais. Eu queria saber se ele conhece algum remédio para enxaqueca. O doutor Eurico não está acertando comigo.

      ¾ Ora, mamãe, o padrinho abandonou a medicina há muito tempo.

      ¾ Eu sei, mas tem coisas que a gente não esquece. E ele parece muito competente.

      ¾ Eu também acho. O João iria ser um grande físico, ao lado dele.

      ¾ Pode ser, mas vamos mudar de assunto. O que é esse bloco na sua mão?

      ¾ Foi o padrinho quem trouxe. Não vejo a hora de ler. O padrinho estava um pouco misterioso, mas parece que é sobre a vida do João.

      ¾ É melhor você não ler isso agora. Poderá lhe fazer mal. Eu guardo para você e depois do parto eu lhe devolvo.

      ¾ Ora, mamãe, o padrinho é médico. Ele não iria me entregar agora se pudesse fazer mal.

      ¾ Mas não foi você mesma quem disse que ele abandonou a medicina há muito tempo? ¾ questionou minha mãe.

      ¾ Sim, mamãe, mas tem coisas que a gente não esquece, não é mesmo?

Capítulo LXXXVI

      EU LHE AVISEI, caro leitor, logo no começo do livro, que poderia surgir mais um narrador no pedaço. E eis que chegou a hora. Daqui para a frente, como você já percebeu, eu vou contracenar com a Glorinha. Com efeito, um dia eu a conheci e você ainda há de ler a rata que eu dei nesse dia. Mas a Glorinha não se importou com isso. Como você verá, a Glorinha é tudo aquilo que você está pensando e muito mais: a Glorinha é um amor de garota. E eu tenho certeza de que você vai gostar dela.

      É possível que você tenha notado também que a Glorinha vai ler o que eu escrevi sobre o João. Sim, aquilo que você leu até o capítulo LXXIX, a Glorinha vai ler agora. Ou seja, a Glorinha e eu estamos escrevendo um livro dentro do outro, sendo que a Glorinha está lendo o primeiro. Não é genial? E se você disser que não, eu reforço o argumento com um dado convincente: pelo preço de um livro você está lendo dois.

      É bem possível que durante alguns capítulos você fique um pouco confuso, mas isso logo passa. Se não passar, é bom você já ir dando um toque para o seu analista.

      Breve chegará o momento em que a Glorinha atingirá o ponto em que você parou e, a partir daí, vocês irão ler juntos o desfecho. Sim, a Grande Batalha. Mas, e para que não haja confusão, eu tomei a iniciativa de agrupar os dois livros. Desta forma, a numeração dos capítulos seguirá como se os dois livros fossem um só. Espero que dê certo.

Capítulo LXXXVII

      DOMINGO À TARDE.

      ¾ Trrrriiiiimmmmmmmmmmm...

      ¾ Alô!

      ¾ É da casa do doutor...

      ¾ Isabel, como vai?

      ¾ Incrível! Reconhece minha voz? É a primeira vez que telefono...

      ¾ Sim, é um antigo hobby. Aprendi com a minha esposa. Mas a que devo a honra deste chamado? Está tudo bem com a Glorinha, não é? Eu estive aí ontem e...

      ¾ Eu sei, doutor. Pena que o senhor foi embora tão cedo. Poderia ter ficado para o almoço.

      ¾ Eu tinha um serviço a fazer e não via a hora de terminá-lo.

      ¾ O senhor é trabalhador mesmo, heim? Em sábado de Carnaval!

      ¾ Não era serviço desse tipo, Isabel, era uma uma espécie de promesssa que eu fui pagar.

      ¾ Ah, entendo. Mas vamos ao assunto...

      ¾ Sim!

      ¾ É com a Glorinha, doutor. Ela está bem, mas teve um desmaio agora há pouco...

      ¾ Durou muito?

      ¾ Não, alguns segundos apenas.

      ¾ Ela já teve isso antes?

      ¾ Sim, umas duas vezes; mas o...

      ¾ Não deve ser nada grave. Mas de qualquer forma eu vou dar uma olhadinha na afilhada. Dentro de trinta minutos eu estou aí...

      ¾ Eu não queria incomodá-lo, mas não consegui localizar o doutor Eurico.

      ¾ Não se preocupe. Hoje é domingo de carnaval e vai ser difícil encontrá-lo. Eu vou até aí e mais tarde eu tento falar com ele.

      ¾ O senhor é tão amável, doutor. Não sei como agradecer.

      ¾ Ora, com um cafezinho, igual ao que o Rodrigo serviu ontem.

Capítulo LXXXVIII

      ENQUANTO EU ME aprontava, as idéias vinham à cabeça:

      ¾ Deixe-me ver. Onde foi que coloquei o estetoscópio? Faz anos que não o uso. Oh, não! Eu deixei na Faculdade com o Zé Roberto! E hoje está tudo fechado. Preciso descolar um. Isso, o Amilton... Não, o Amilton mora muito longe; deve haver um meio mais fácil. Acho que eu vou até a farmácia e... Ora, é isso mesmo, o seu José deve estar em casa hoje e ele tem também aparelho de pressão. É lá que eu vou.

      ¾ Tio, você va... vai sair?¾ era o Leandro, meu sobrinho-neto. O Leandro mora em Barra do Garças e estava passando as férias em São Paulo.

      ¾ Vou.

      ¾ Posso ir junto, tio?

      ¾ Agora não, ¾ respondi secamente, ¾ mais tarde a gente dá um passeio por aí, está bom?

      ¾ Tá, tio.

Capítulo LXXXIX

      ¾ BOA TARDE, Domingos. Estava passando por aí e senti o cheiro de café; e então resolvi cumprimentá-lo.

      ¾ Pois chegou bem na hora, doutor. Como é, já fez a matrícula na Faculdade?

      ¾ Já. Oi Rodrigo, não está pulando o carnaval?

      ¾ Só a noite, ¾ respondeu Rodrigo. ¾ Eu vou no Juventus com o Simão e umas gatas. Agora só tem matinê, para a garotada.

      ¾ Quer dizer, Domingos, que a afilhada passou mal?

      ¾ Sim, foi logo antes do almoço. A Isabel acudiu e...

      ¾ Olá doutor ¾ era a Isabel ¾ eis o cafezinho, conforme o combinado.

      ¾ Pagamento adiantado? ¾ brinquei.

      ¾ Mais tarde a gente toma outro, ¾ respondeu Isabel.

      ¾ E a Glorinha?

      ¾ Está descansando no quarto. Ela não almoçou nada. Mas eu fiz um mingau de maizena e ela limpou o prato.

      ¾ Fez bem em dar coisa leve. A gravidez desperta o apetite. Como é que foi o desmaio?

      ¾ Foi aqui na sala. Ela estava nessa cadeira lendo o que o senhor escreveu sobre o João quando eu vim chamá-la para almoçar... Doutor, não seria melhor que ela esquecesse o João? Ela anta tão tristinha ultimamente.

      ¾ Sim, seria. Eu já pensei nisso, Isabel, mas não vai ser fácil assim. Faz tão pouco tempo. E depois, tem a criança para lembrá-la. Concordo que ela precisa se distrair com alguma coisa, mas com quê? E foi então que eu pensei em trazer o que tinha escrito sobre o João. Não é a solução, mas quem sabe possa reanimá-la por uns tempos. Pelo menos até o parto, ou até que possamos mudar de tática.

      ¾ Nesse aspecto eu acho que o senhor tem razão, ¾ concordou Isabel; ¾ a partir de ontem ela parece que ganhou vida nova... É, o senhor está certo, ela não vai esquecer do João tão cedo. Foi bobagem minha pensar nisso. Afinal, eles se amavam tanto. Sua morte foi uma tragédia.

      ¾ De qualquer forma, Isabel, ¾ falei, ¾ quarta-feira eu vou conversar com o doutor Eurico. Eu soube, por um farmacêutico amigo, que ele está viajando.

Capítulo XC

      PREZADO LEITOR.

      É possível que a esta altura do campeonato você esteja preocupado com a saúde da Glorinha. Ou, quem sabe, me julgando um monstro por entregar à Glorinha uma história que, podes crer, vai te deixar pinel. Mister se faz, então, um pequeno esclarecimento.

      Em primeiro lugar, é bom que você saiba que eu também me preocupo com a saúde da Glorinha, e muito mais do que você. Em segundo lugar, a Glorinha tem estrutura para agüentar essa barra; e eu não sei se posso dizer o mesmo de você. Mas de qualquer forma sossegue, pois eu tomei certos cuidados que você desconhece. A Glorinha não está lendo o mesmo que você leu ou vai ler. Existem pequenas diferenças. Como eu já disse, agrupei os dois livros em um só e nesse momento sim, eu adicionei alguns detalhes subliminares de uma nova teoria que estou desenvolvendo. E portanto, e aqui eu vou falar pela última vez, não sou eu nem a Glorinha quem vai pirar e sim você. Estamos entendidos? Então vamos prosseguir.

Capítulo XCI

      ¾ OLÁ GLORINHA, não esperava encontrá-la tão cedo!

      ¾ Nem eu, padrinho. Eu disse para a mamãe não incomodá-lo que eu já estava bem. Mas estou contente em vê-lo.

      ¾ Não foi incômodo algum, ¾ falei. ¾ Cedo ou tarde eu viria mesmo visitá-la.

      ¾ Precisava mesmo, ¾ acrescentou Glorinha, ¾ a visita de ontem foi muito rápida, não valeu.

      ¾ Sim. Estou vendo que o meu escrito virou livro de cabeceira.

      ¾ Ai, padrinho, o senhor escreve tão bem que eu não tenho vontade de largar.

      ¾ Bondade sua, Glorinha! Mas é bom que leia devagar. São acontecimentos de um ano inteiro; não queira acabar em uma semana.

      ¾ Eu nem poderia. Leio um pouquinho e me dá tontura. Será que é alguma coisa com o meu filho?

      ¾ Acho que não. Daqui a pouco vou examiná-la. Até onde você leu?

      ¾ Eu estou naquele trecho em que nós fomos na cantina do seu Francisco.

      ¾ Nessa velocidade está bom. Você não deve se esforçar, ¾ repeti.

      ¾ Alguns trechos eu tenho lido várias vezes ¾ disse Glorinha. ¾ É tão bom ver o João falar de mim.

      ¾ Sim, eu acho que a atração de João por você é muito antiga.

      ¾ E eu acho que era recíproca; mas ele era tão moleque que eu demorei a perceber que era amor.

      ¾ Está na hora de mudarmos de assunto. Eu quero saber direito como é que foram essas tonturas. E depois eu vou examiná-la.

Capítulo XCII

      SIM, FOI UM PAPO bastante descontraído. Às vezes eu sentia como se o João estivesse viajando, podendo chegar de uma hora para outra. E a Glorinha também parecia sentir-se assim.

      Na hora do exame médico eu me atrapalhei um pouco. Sabe como é, leitor, nove anos são nove anos. Tanto na obtenção da história quanto no exame físico o médico acostuma-se a seguir um roteiro. E é importante que assim seja, pois além de se ganhar tempo, fecham-se todas as lacunas, de modo que nada passe desapercebido. E é por isso que um médico recém-formado fica uma hora com um doente enquanto outro, mais matreiro, consegue obter maior quantidade de informações em apenas vinte minutos. Pois nesse aspecto eu estava pior do que um recém-formado.

Capítulo XCIII

      ENFIM O SUPLÍCIO acabou. E foi então que resolvi surpreender Glorinha.

      ¾ Deixe examinar novamente seu abdomen, Glorinha ¾ falei enquanto ia com o estetoscópio em determinada área.

      Localizei o que queria e pedi a Glorinha que escutasse. Ela hesitou um momento, mas acabou concordando.

      ¾ Não ouço nada, padrinho... Ah, pera aí, acho que é isso,... parece a minha pulsação! Que engraçado!

      ¾ Não acha que está muito rápida para ser sua?

      ¾ Sim, é verdade, ¾ respondeu Glorinha surpresa. ¾ Então... só pode ser... Padrinho!

      ¾ Sim, você está ouvindo o coração do seu filho ¾ acrescentei.

      ¾ Mas é tão fraquinho...

      ¾ Pode-se ouvir melhor com aparelhagem especial. Com esse estetoscópio isso é o máximo que pode ser feito. Mas ele está com bastante saúde, não precisa se preocupar.

      Glorinha ficou uns três minutos se maravilhando com aquele primeiro contato com o filho. A seguir chamou a mãe:

      ¾ Mamãe, venha ouvir o seu neto! Olhe como bate rápido o coraçãozinho dele!

Capítulo XCIV

      VOLTEI À SALA de estar e Isabel me serviu um pêssego em calda, seguido de outro café. E fiquei conversando com o Domingos, enquanto ela foi atender Glorinha que a chamara. Um pouco depois o Domingos me convidou para conhecer a coleção de plantas exóticas que tinha no quintal. Era realmente muito bonita.

      ¾ Você gosta de excentricidades, heim Domingos? Livros místicos, plantas exóticas.

      ¾ Meus filhos me ajudam a cuidar das plantas. E os livros são a minha distração domingueira.

      ¾ E qual a sua atividade durante a semana?

      ¾ Eu tenho um escritório de contabilidade. Formei-me em direito, mas nunca exerci a profissão de advogado. Nessa época eu já estava bem instalado.

      ¾ Então estamos empatados.

      ¾ E a São Judas, quando é que vai abrir Faculdade de Direito? Eu tenho muitos amigos que estão esperando por isso.

      ¾ Talvez o ano que vem, talvez nunca. Quando os donos do ensino no Brasil permitirem.

      Estávamos lá há mais de vinte minutos quando chegou a Isabel feliz da vida:

      ¾ Ela dormiu ¾ falou. ¾ Era disso mesmo que ela estava precisando, doutor. É a primeira vez que ela passa meia hora sem falar no João. O senhor acertou em cheio. Ela estava até agora pouco ouvindo a criança. Foi tão bom o senhor ter vindo! O doutor Eurico é muito frio, muito seco.

      ¾ No lugar dele eu também seria, Isabel, ¾ acrescentei.

 

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 Capítulo XCV

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