Espaço Científico Cultural

CHAMBERLAND E O PARAÍSO PERDIDO

 

1a. Parte - Chamberland
capítulos XLIV a XLIX

 

Capítulo XLIV

      A SEGUNDA ATIVIDADE do Laboratório era uma narrativa que deveria ser feita em conjunto. Dependendo da proposta escolhida poderia ser incluída também uma dramatização.

      ¾ ... É um desafio para a criatividade do grupo, ¾ concluiu o Gil. ¾ Escolham então uma das seis propostas da apostila e, em conversa, façam um levantamento inicial da situação com impressões, reflexões, pormenores, etc. E depois escrevam.

      Nem bem o Gil terminou de falar, o Xarope se adiantou:

      ¾ Nós vamos escolher a terceira proposta, certo? Eu já li em casa e é sobre uma festa a que vamos. Acho que a anfitriã podia ser a Simone e... Não, a Simone não dá, todos nós a conhecemos bem. Que tal a Fernanda, uma amiga minha? Vocês nem a conhecem, como a proposta exige. Assim eu convido vocês e... Puxa vida, como é que eu vou fazer pro vovô aí, ¾ e apontou para o coroa, ¾ entrar nessa festa? A Fernanda não combina com ele. Bom, eu dou um jeito. A gente...

      ¾ Terminou?

      ¾ Não, João, eu apenas comecei.

      ¾ Então acho bom você parar por aí mesmo, ¾ falei, ¾ nosso grupo não está precisando de um chefe. Ou você aceita as regras do jogo, ou escolhe outro lugar para ficar.

      ¾ Tá bom, João, eu queria ajudar, desculpe.

      ¾ E se depender de mim, ¾ continuei, ¾ nós vamos ficar com a segunda proposta. Ela caiu na FUVEST.

      ¾ A terceira também, ¾ reanimou-se o Xarope, ¾ e é mais recente.

      ¾ Não, ¾ fui enérgico, ¾ nós vamos votar e se a sua proposta ganhar eu me rendo.

Capítulo XLV

      ¾ OLHA LÁ, Cazuza, o coroa vem chegando com o Time embaixo do braço. Toda terça-feira é assim, quer ver? Agora ele fica parado na porta o tempo necessário para dar duas tragadas, depois joga o cigarro e só então entra. Eu acho que ele compra o Time na banca ao lado do estacionamento, paga, e a seguir acende o cigarro. Quando chega aqui o cigarro está a meio termo.

      ¾ É mesmo! ¾ exclamou Cazuza, ¾ ele está jogando fora o cigarro e acho que vai entrar... Entrou!

      ¾ Ei, Mestre, me empresta o Time?

      ¾ Here you are.

      ¾ That's very kind of you. Thank you, very much.

      ¾ You're welcome.

      ¾ Ô meu, vocês estão falando em inglês! ¾ exclamou Cazuza assustado.

      ¾ Com nóis é assim, ¾ emendei. E o coroa foi se sentar dando risada.

      ¾ Na capa do Time estava o Gorbachev, em primeiro plano e, pouca coisa mais atrás e mais alto, o Reagan, com a mão direita no ombro direito do Gorbachev. Inúmeros guarda-costas completavam o cenário.

      Folheei vagarosamente o Time, que dedicava muitas de suas páginas ao Summit ou encontro dos Grandes Irmãos orwelianos, como escrevera o coroa em um de seus livros. Na página dez senti um calafrio ao ver a foto superior; e me lembrei de Chamberland: Comunistas e capitalistas, aí, dar-se-iam as mãos. E ali estavam, Reagan e Gorbachev, cumprindo a profecia. Neste momento o Jonas entrou na sala e eu guardei a revista.

      Apostila quatro, página 87, Funções, escreveu o Jonas no quadro negro.

Capítulo XLVI

      NA QUARTA-FEIRA, após a aula de Inglês, o coroa estava animado. Entramos no seu carro. Deu a partida e comentou:

      ¾ Até que enfim o semestre está acabando. Faltam apenas quinze dias. O cursinho está muito bom mas eu estou precisando de umas férias. Hoje eu mandei visar o passaporte.

      ¾ Vai viajar?

      ¾ Sim! Vou conferir as aulas do Regalo in loco.

      ¾ Estados Unidos?

      ¾ Nordeste dos Estados Unidos e Canadá. Vinte e um dias. O Cursinho termina dia oito de julho e eu embarco dia dez.

      ¾ Excursão?

      ¾ Não. Eu desço em Nova York, encontro um carro à minha espera e inicio uma jornada de mais ou menos cinco mil quilômetros: Boston, Canadá, Chicago, Nova Iorque e adjacências.

      ¾ Vai sozinho? ¾ perguntei.

      ¾ Não, vou com a minha esposa.

      ¾ Vai ser bom para treinar o Inglês, ¾ acrescentei.

      ¾ E acima de tudo para espairecer. Em agosto eu volto de pilha nova, ¾ completou o coroa.

Capítulo XLVII

      QUINTA-FEIRA à noite. O Gil entrou na sala com a corda toda.

      ¾ Hoje vamos fazer algo diferente ¾ falou como se as aulas anteriores tivessem sido muito corriqueiras.

      Deveríamos compor uma narrativa fantástica, ou seja, no estilo realismo mágico. Leu, como exemplo, um fragmento da obra Metamorfose, de Franz Kafka, em que a personagem, ao acordar certa manhã, viu-se transformando em uma grande barata.

      Os temas eram muitos e, em geral, já caídos em vestibulares. O diferente seria a conotação fantástica que deveríamos dar.

      ¾ Esses temas não estão nada fáceis, ¾ reclamou Simone.

      ¾ Pois eu acho que para o João está de colher, Simone, disse o coroa. ¾ Veja só este:

Escreva uma história cujo final seja o
seguinte anúncio: "Vende-se uma motoca".
(FUVEST-83)

      ¾ Pois eu preferiria que o final fosse: Ganhei uma motoca, ¾ falei.

      Risos.

      ¾ Mas de qualquer forma, ¾ acrescentei, ¾ vou ficar com esse mesmo, pois caiu na FUVEST.

      Mais risos.

      ¾ Vai se transformar numa motoca? ¾ ironizou Simone.

      ¾ Não, vou fazer algo muito mais original, ¾ respondi. Vou deixar a poesia do Cazuza no chinelo.

      ¾ Já descobriu algo de fantástico? ¾ estranhou o coroa.

      ¾ Sim, Mestre, o espelho mágico, ¾ respondi.

      ¾ Essa de espelho já é muito manjada, ¾ zombou Simone; ¾ você olha e no lugar de sua cabeça vê um velho todo enrugado...

      ¾ Sim, mas a minha história é diferente. Vou atravessar o espelho e ver o que há do lado de lá.

      Risos.

      ¾ Cadê o Xarope? ¾ perguntou Cazuza.

      ¾ Está lá atrás. Foi infernizar outro grupo, ¾ respondeu Simone. ¾ Acho que ele não gostou da dura que o João deu nele. Ainda bem.

      Mais risos.

      ¾ Parece-me realmente fantástica essa sua idéia, João ¾ acrescentou o coroa. ¾ Atravessar um espelho!

      ¾ E há de ser uma tragédia amorosa, ¾ completei.

      ¾ Amorosa? E qual vai ser o nome da heroína? ¾ perguntou Cazuza.

      ¾ Lucíola.

      Risos.

      ¾ Lucíola é de Alencar! ¾ acrescentou o coroa.

      ¾ Carolina também; e de Chico Buarque, e de tantos mais, ¾ concluí.

Capítulo XLVIII

      PAGUEI UM SAPO, pensei. Resposta a tiracolo. Fulminante. Mordaz. Merecida.

      De repente o João como que entrou em transe e começou a escrever. Realmente ele estava fazendo uma poesia. E as coisas iam saindo naturalmente, como se estivesse psicografando. Em nenhum momento riscou alguma coisa já escrita. Sequer voltou atrás para acentuar alguma palavra, ou mesmo para conferir o que já houvera escrito. Nenhuma emenda, nenhum risco, nenhuma rasura. Nunca vira nada igual. Era uma poesia longa e fora concluída em cerca de vinte minutos.

      ¾ Pronto! ¾ falou eufórico. ¾ Roubei um verso de Gregório de Matos e adaptei outro de Camões; o resto é meu; ¾ e apontou-me o primeiro:

Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

      ¾ Mil anos de perdão! ¾ exclamei ao lê-lo. ¾ O original é de Gôngora.

      João não gostou. Feri seu ídolo. De Gregório, João perdoava até o preconceito. Liberdade poética, dizia.

      Comecei a ler. E percebi, logo nas primeiras estrofes, que João realmente deixara a poesia do Gazuza no chinelo.

 

     
 


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O espelho mágico

Um espelho e uma rosa
No túmulo das Lucíolas
Deixei; e chorei.
Lágrimas fingidas,
Refletidas, contemplei.
¾ Hipócrita ¾ bradei.

¾ Receba esta rosa
Lucíola querida
Por quanto te amei.
E a ti, minha amada,
Imagem da flor,
A imagem da rosa;
Da imagem da dor.

Vaguei desconsolado horas a fio
Sem rumo, sem sabor, sem mim, sem nada;
Até que compreendi: Lucíola não
Morreu: eu é que morri. Fiz figa,
Mas brami: sua safada.

Da primeira vez
Que o atravessei,
Espelho meu, ou o
Que de ti restou,
Lucíola era ela,
Tão linda, tão bela,
Tão cheia de amor.

Cupido, respondas,
Suplico: Por que
Por quem odiava
Lá, eu era amado, e
Por quem eu amava
Cá, era odiado?
Cupido, por quê?

Da segunda vez que o atravessei,
Foi jóia, fiz tudo, foi bom, fui fundo.
Tentei eternizar, Lucíola não
Deixou. Pro bem do nosso amor, falou:
Urge que vás.

Nosso ninho de amor não tinha espelhos.
Pudera! Tão grande amor, a imagem
Ódio era. Quem nasceu do lado errado?
Fora eu?... Fora ela?

Terceira, quarta, tantas mais, aos poucos
Fui sacando: um tempo aqui, mil tempos
Lá; mundo de canhotos, destro eu era;
O sonho, lá real, aqui quimera.

Da última vez
Que o atravessei,
Espelho meu, ou o
Que de ti restou,
Lucíola chorosa,
Cativa e formosa,
Em silêncio me amou.

Deixou-me um bilhete,
Um sorriso e um falsete:
¾ "Até breve amor."
Sorri! Não entendi
A importância da hora.
Desfiz-me em beijos.
Feliz fui embora.

Abri o bilhete. Surpreso me vi.
Mensagem cifrada? Não compreendi.
Mas... claro! Mensagem às avessas!
Ao espelho corri. E o que li?

¾ "Contigo, querido,
Sonhei. Desastre.
Morreste.
Te espero no além.
Cuida..."
¾
Saltei para o espelho:
Pancada, ruído, estilhaços.

Refiz-me. Em breve
O inevitável aconteceu.
A notícia chegou:
Lucíola morreu.
Sonho revelado,
Destino trocado.
Cruel era a lei.

Envolto em versos mil, me encontrei,
Perdido o lenho, em mar bravio, e andei
Mais uma hora. Cupido, sandeu,
Em que me transformaste? Resposta:
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

Exausto, a casa retornei, e em prantos
Me banhei. Em vão supliquei: Morfeu,
Afasta-me daqui. Em vão pedi:
Lucí...
Lucíola! Quase esqueci!

Seu último desejo
Obedeci. Tomei
Do pincel,
Da cartolina,
Da tinta,
E escrevi:
"Vende-se uma motoca."

.

 
     

Capítulo XLIX

      NA SEGUNDA-FEIRA seguinte o João chegou cedo ao Laboratório de Redação e se apressou em pegar sua poesia com os comentários do Gil. Assim que chegamos ele veio contente nos mostrar:

      ¾ O Gil gostou. Veja, coroa!

Gostei muito do seu trabalho: uma narrativa poética! (Ou uma poesia narrativa?). Você criou um clima denso e dramático, muito próximo da "tragédia". A "motoca" recupera tudo isso e passa a ser a sutileza e a revelação da mensagem. O "fantástico" predomina.
Vale a pena você ouvir outras leituras sobre seu trabalho
Muito bom!!!
                                                                       
Gil

 

 

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