Espaço Científico Cultural

CHAMBERLAND E O PARAÍSO PERDIDO

 

1a. Parte - Chamberland
capítulos XXXIV a XLIII

Capítulo XXXIV

      QUINTA-FEIRA à noite encontrei o Edilson na Faculdade.

      ¾ Não visita mais os amigos ¾ cobrou-me em tom cordial.

      ¾ O cursinho está me deixando sem tempo para nada ¾ falei ¾ mas eu estava mesmo a fim de procurá-lo. Vamos até a minha sala tomar um cafezinho. Eu tenho um assunto para contar.

      O episódio de duas semanas atrás ainda me atormentava. Precisava conversar com alguém e o Edilson veio a calhar. Ele era um dos poucos amigos capazes de manter a discrição; e também de aceitar minha loucura. E isto era o que bastava, visto que a decifração do enigma caberia a mim. Eu tinha o pressentimento de que algumas peças do quebra-cabeças iriam ainda surgir e sequer sabia dizer com segurança se já estava trilhando o caminho certo. Que dizer do atalho?

      Cheguei mesmo a duvidar que o enigma estivesse relacionado com o João, posto que, exceto pelas caronas às quartas-feiras, ele estava se tornando para mim um garoto semelhante aos demais. E também já não estava tão certo quanto à origem da voz que ouvira. Parecera-me agora uma voz interior, proveniente do meu inconsciente. Nosso cérebro é uma máquina maravilhosa e quase desconhecida. Capaz mesmo de nos iludir com sensações as mais variadas possíveis. Tal e qual um ventríloquo, devo ter transportado minha voz interior para fora.

      Fiquei satisfeito com essa conclusão. Mas senti que eu decifrara apenas a periferia do enigma. Seu cerne permanecia nebuloso. Precisava então de alguém como o Edilson, nem que fosse apenas para reforçar meu ego.

Capítulo XXXV

      SUBIMOS PELA escada e, em dado momento, o Edilson me perguntou:

      ¾ Você está dando muito trabalho para os professores de Física do cursinho?

      ¾ Que nada, ¾ falei, ¾ o Álvaro, o Osvaldo e o Pedro Paulo são espetaculares. Embora o curso ainda esteja no começo, eu sinto que tenho muito o que aprender com eles. Eu precisava mesmo lapidar meus conhecimentos.

      Chegamos à minha sala. Encostei a porta e narrei o episódio da Grande Batalha, tal e qual houvera sentido. Omiti apenas minhas suspeitas iniciais sobre o João. Assim que concluí, o Edilson vibrou:

      ¾ Fantástico, sensacional!

      ¾ Você está parecendo o Ponce, ¾ falei. ¾ Eu sabia que você ia gostar.

      ¾ Quem é esse Ponce?

      ¾ Um professor do Cursinho, mas isso não importa. Que me diz da Grande Batalha?

      ¾ Estranho, ¾ comentou. E dando um ar misterioso à voz, completou: ¾ Está me parecendo o apocalipse. O que você acha disso?

      Senti um frio percorrer a coluna, de alto a baixo.

      ¾ Não concordo, ¾ falei. ¾ Eu acho que você está interpretando a mensagem muito ao pé da letra. Além disso, o apocalipse será o fim do mundo; e a mensagem dava a entender que eu saberia alguma coisa após a Grande Batalha.

      ¾ Aí é que você se engana, ¾ discordou o Edilson. ¾ Muitos serão salvos. E após a Grande Batalha entraremos na Era de Aquário.

Capítulo XXXVI

      NA PROVA DE ABRIL o João tirou a segunda nota da classe. Acertou oitenta e quatro testes em noventa e seis, três a mais do que eu. O garoto estava mesmo a fim de entrar na USP.

      Parabenizei-o, mas procurei transmitir-lhe uma certa dose de realismo. Isto para que ele não se sentasse sobre os louros de uma vitória a ser ainda conquistada. Eu já passara por algo semelhante há vinte e sete anos atrás: começara o cursinho a todo o vapor e no final estava quase sem combustível; e por muito pouco não fui ultrapassado por colegas que no primeiro páreo sequer haviam pago placet. E fui obrigado a me contentar com um nonagésimo segundo lugar de um curso com cem vagas.

      Contei esta minha história ao João e ele agradeceu o meu interesse; mas não se comoveu. Realmente, o João estava muito determinado a vencer todos os obstáculos. Ultrapassá-los-ia a qualquer preço. E acabei concluindo que me preocupara à toa. Com efeito, nas duas provas que se seguiram, em maio e em junho, o João se manteve entre os três primeiros da classe.

Capítulo XXXVII

      O MÊS DE JUNHO e o começo de julho serviram para que selássemos definitivamente nossa amizade. Ao término do primeiro semestre, senti que não havia mais diferença de idade entre eu e o João. João deixou de enxergar-me como mestre e eu deixei de encará-lo como garoto. Era como se nos conhecêssemos há muito tempo. E tudo começou com o Laboratório de Redação. Mas deixemos o João narrar com suas palavras.

Capítulo XXXVIII

      EM 16 DE JUNHO, uma quinta-feira, começava o Laboratório de Redação. Seriam duas aulas semanais, às segundas e quintas, de duas horas de duração e com início às 19 horas. O Laboratório era no sub-solo. Nesse dia desci as escadas e encontrei o monitor que me indicou a sala:

      ¾ É por ali, João, à direita.

      Entrei. Visualizei umas vinte mesas cercadas por cadeiras. O professor, cujo nome vim a saber ser Gil, conversava com dois funcionários que pareciam testar o sistema de som. No mais, via-se um quadro negro, como em qualquer sala de aula, e uma pequena mesa, diferente das demais e, provavelmente, destinada ao mestre. A classe ainda estava quase vazia; apenas meia dúzia de alunos completavam o cenário; e, entre eles...

      ¾ Olá, João, sente-se aqui. ¾ Era a Simone.

      ¾ Você viu o coroa? ¾, perguntei.

      ¾ Estava na lanchonete há pouco. Acho que logo ele desce.

      ¾ Seria bom que ficássemos juntos ¾ acrescentei. ¾ Vamos trabalhar em grupo e desta forma terminamos os trabalhos ao mesmo tempo.

      ¾ O Cazuza e o Marquinhos estão chegando, ¾ falou Simone.

      ¾ Cazuza, Marcos, ¾ gritei, ¾ estamos aqui.

      ¾ Por falar no coroa, olhe quem vem vindo, ¾ acrescentou Simone.

      ¾ Oi, Mestre, aprochegue-se. Seu lugar está reservado.

      ¾ Olá, garotos, ¾ cumprimentou-nos o coroa sorrindo. ¾ É reconfortante, na minha idade, sentir-se querido pelos jovens.

      ¾ Não tenha tanta certeza disso, ¾ emendou Cazuza também sorrindo; ¾ os dois aí estão é garantindo a condução.

      ¾ Ora, Cazuza, ¾ falei, ¾ o coroa é amigo do peito. Nossa amizade está acima disso, não é Mestre?

Capítulo XXXIX

      O GIL COMEÇOU a aula com uma explanação sobre a dinâmica, os planos de ação e os objetivos do Laboratório. Após o blá-blá-bla inicial, que durou uns dez minutos, orientou-nos sobre a primeira atividade: criatividade. Forneceu-nos uma cartolina, com o tamanho pouco maior que o de uma folha de papel ofício, onde deveríamos desenvolver uma dentre as três propostas da apostila. O trabalho seria individual, seguido de uma discussão em grupo.

      ¾ Eu me amarrei na terceira proposta, ¾ falou o Marcos.

      ¾ Pois eu ainda estou em dúvida, ¾ falei. ¾ E você, corôa?

      ¾ Também estou em dúvida. Talvez a primeira...

      ¾ É bom mesmo, ¾ interrompi, ¾ a terceira é que não podia ser. Já pensou, Cazuza, o coroa relatando um episódio marcante da infância? Haja memória.

      Risos.

      Após alguns minutos o Gil compareceu à nossa mesa:

      ¾ Todos já escolheram?

      ¾ Eu ainda estou em dúvida, Mestre, ¾ falei. ¾ Estou ligadão na segunda proposta, mas a que caiu na FUVEST foi a terceira e...

      ¾ Esqueça o vestibular por enquanto, João, ¾ interrompeu-me o Gil. ¾ A aula de hoje é sobre criatividade e destina-se à formação afetiva dos grupos. Libere-se, solte a imaginação.

      ¾ Eu acho que também vou fazer uma poesia, interrompeu Cazuza.

      Risos.

      ¾ E você, Simone? ¾ perguntou o Gil.

      ¾ Eu escolhi a proposta número três.

      ¾ Pelo visto só eu vou ficar com a primeira, ¾ completou o coroa.

Capítulo XL

      O GIL DEU INÍCIO às atividades individuais. Ligou a parafernália sonora e, em meio ao fundo musical, ficou, de tempos em tempos, recitando alguns pensamentos ¾ou mesmo palavras soltas¾ ao microfone.

      A Simone e o Marcos desembestaram a escrever suas redações. O Cazuza não parava de cutucar o Marcos; parecia vibrar a cada verso que concluía. O coroa também se desligou do ambiente e ensaiou uns rabiscos. E eu sobrei, sem conseguir fazer nada; ou melhor, reuni uma dúzia de palavras sem conseguir agrupá-las. Fiquei então supervisionando os trabalhos.

      De tempos em tempos o Gil espichava o pescoço em direção aos rabiscos do coroa, como a querer decifrá-los.

Capítulo XLI

      PRONTO! ¾ disse o coroa com ar de satisfação, enquanto nos mostrava sua obra prima. ¾ Que acham?

 

 

      Uma seta envolta por uma espiral? O coroa pirou, pensei, mas disfarcei meu espanto.

      ¾ Bonito! ¾ falei. ¾ Acho apenas um pouco abstrato, concorda?

      ¾ Esperem, é isso mesmo, falta alguma coisa. ¾ Tomou-me o esquema das mãos e ensaiou mais alguns rabiscos. Em poucos minutos surgiu um lago, umas montanhas, uma nuvem... e da nuvem parecia sair um trovão.

      ¾ A borracha, please.

      ¾ Pois não, ei-la.

      Apagou a extremidade da seta, que agora mais parecia uma árvore, redesenhando-a quebrada por ação do raio. Fez com que a espiral saísse do lago, e continuou dando mais alguns retoques. Enquanto isso o Cazuza nos mostrou sua poesia e eu achei o maior barato:

 

     
 
   Dois e dois são quatro.
   Jamais me conformei com isso.
   Por que não mais?
   Não, por que não menos?
   Sim, que bom seria!
   Eu tenho quatro:
   Dois pra vir, dois pra voltar,
   Noves fora sobraria
   Algum trocado pro jantar.

   Mas que nada,
   Dois e dois são mesmo cinco:
   Um pra vir, um pra voltar,
   E os outros três pra sustentar
   Deputado, banqueiro, militar.
   Quem me dera agora
   Eu tivesse uma viola
   Prá cantá.

.

 
     

 

      ¾ Se não tivesse viola não seria do Cazuza, ¾ completou Simone.

      ¾ Só falta a música, ¾ acrescentei.

      ¾ Pronto! ¾ disse o coroa. ¾ Agora sim, o desenho está completo.

 

Capítulo XLII

      ¾ UM RAIO ME LEMBRA cabrr... rummmm, ¾ falou Simone.

      ¾ E por que não cham... ber... land?

      ¾ O quê? ¾ disse o coroa.

      ¾ Nada, não, só estava pensando em voz alta.

      ¾ Chamberland significa terra câmara, ou terra quarto, ou ainda cela, ¾ surpreendeu-me Simone com o que eu ainda não havia pensado. E aumentando a voz: ¾ De onde você tirou essa palavra?

      ¾ De lugar nenhum, ¾ menti com receio de prolongar inutilmente a conversa. ¾ Foi apenas um som que me veio à cabeça. ¾ E então mudei de assunto: ¾ Mas se este raio está atingindo a seta do tempo, quebrando-a, isto significa morte.

      ¾ Ai, não fale esta palavra que me dá arrepios. Prefiro a vida, ¾ resmungou Simone.

      ¾ É, quem sabe você tenha razão, João, ¾ falou o Marcos. ¾ A árvore deve representar o tempo. Notem o t em sua extremidade! E a espiral representa alguma coisa, y, que é função do tempo, f(t); por exemplo, a vida, com seus altos e baixos.

      ¾ Correto, ¾ afirmou o coroa sorrindo, ¾ mensagem transmitida. Podemos passar à próxima charada. O tempo está correndo.

      ¾ Mas e o lago? Porque não reflete a espiral? ¾ perguntou Simone.

      ¾ O lago é um espelho; reflete apenas o que é real. A vida é mais do que isso ¾ filosofou o coroa. ¾ Não tem imagem.

      E não sei por quê, não me convenceu.

Capítulo XLIII

      SEGUNDA-FEIRA à noite.

      ¾ Olá, coroa, chegou cedo hoje?

      ¾ Sim. Estava ajudando o Gil a fixar os trabalhos da primeira aula nas paredes. Escolhi o melhor lugar para o nosso grupo; e bem próximo à nossa mesa.

      ¾ É, já percebi isso; e certamente foi por acaso que você deu um destaque todo especial aos seus rabiscos, não é verdade? Ele ficou bem no centro.

      ¾ Bem, a gente tem que se promover, não é mesmo? ¾ falou o coroa corado. ¾ Olá, Cazuza, venha ver a sua obra prima na parede. O Gil falou que a sua poesia está muito boa.

      ¾ Eu já fiz coisas melhores, ¾ brincou Cazuza, ¾ mas para uma primeira atividade tá bom.

      A Simone e o Marcos chegaram logo após. Quinteto completo.

      A nossa atividade hoje, ¾ começou a falar o Gil, ¾ vai ser...

      ¾ Oi Mestre, posso entrar? ¾ Era o Xarope.

      ¾ Pois não, ¾ respondeu o Gil, ¾ a aula ainda não começou.

      O Xarope entrou e veio em nossa direção. Quando estava próximo, disse em voz alta:

      ¾ Hoje eu vou ficar nesse grupo; olá turma.

      ¾ O esquema aqui é um por todos e todos por um, ¾ falei. ¾ Se todos concordarem...

      ¾ Bem, já que todos concordam, ¾ interrompeu-me o Xarope, ¾ eu vou me sentar. Com licença.

      O apelido Xarope fora dado pelo Tito, um dos professores de Química, e pegou. Veio mesmo a calhar. Ele vivia querendo pegar no pé dos professores. Só com o Tadeu e com o Cláudio é que ele não se metia. Aliás, ele tentou mas saiu perdendo. Quase ninguém da classe sabia o seu verdadeiro nome.

 

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Capítulo XLIV

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