Espaço Científico Cultural

CHAMBERLAND E O PARAÍSO PERDIDO

 

1a. Parte - Chamberland
capítulos XXIII - XXXIII

Capítulo XXIII

      ¾ Está gostando do cursinho, Mestre? ¾ perguntei ao coroa enquanto nos dirigíamos à lanchonete.

      ¾ Ainda é muito cedo para concluir alguma coisa, João. Uma semana é pouco. Mas os professores parecem ser muito bons. E, além do mais, eu estou achando um barato. Só não estou gostando desta aula de Inglês que vamos ter agora; e parece que vão ser duas.

      ¾ É mesmo, ¾ confirmei. ¾ Depois de cinco aulas, ninguém tem mais saco para nada.

      ¾ E eu então? ¾ emendou Cazuza ¾ Inglês pra mim é Grego. Ainda bem que as aulas de hoje foram quase todas da área de Exatas.

      ¾ Menos Literatura, ¾ acrescentei.

      ¾ Sim, mas a aula do Medina é o maior barato, ¾ disse Cazuza. ¾ Você viu a imitação que ele fez do Elvis Presley? A classe quase veio abaixo.

      ¾ Realmente. Melhor do que o show do Medina só mesmo a aula do Giba. Sexta-feira o Giba me fez chorar de tanto rir.

      ¾ Ei, vocês vieram aqui pra comer ou pra conversar? ¾ brincou o coroa. ¾ Nós só temos quarenta minutos para o rango. Eu vou pedir um X-maionese.

      ¾ Então são dois, ¾ falei.

      ¾ Três, ¾ concluiu Cazuza.

      ¾ Eu acho que vão ser quatro. ¾ Era a voz do Marcos, que acabara de chegar.

      Excetuando o Cazuza, todos nós achamos a primeira aula de Inglês bastante simples. O Cazuza se desligou da aula e ficou folheando a apostila. Num dado instante ele se deparou com o Song: London, London, do Caetano Veloso, e não se conteve:

      ¾ Essa eu aprendo! ¾ exclamou enquanto me mostrava o texto da aula 3. ¾ E vai ser na semana que vem. Acho que eu vou trazer meu violão.

      ¾ Ei, vocês aí, qual é o problema? ¾ reclamou o Enéas.

      ¾ Não é nada não, Mestre. É que o Cazuza quer cantar o London, London, que está na página 221. ¾ E com estas palavras eu consegui quebrar a rigidez do Mestre.

      ¾ Hoje nós estamos na página 216 ¾ falou o Enéas mais calmo. ¾ Se vocês quiserem música, venham na próxima aula.

      ¾ Pô, Cazuza, assim você me compromete, ¾ sussurrei ao seu ouvido.

      Num dado momento, enquanto traduzíamos o texto da aula 2, o Enéas observou:

      ¾ Se vocês querem fazer uma boa prova de Inglês, especialmente na FUVEST, aconselho que se habituem a ler o Time. Para a interpretação de texto é fundamental que treinem.

      ¾ Pode ser o Newsweek, professor? ¾ perguntou o Marcos.

      ¾ Pode. Mas cuidado. Para alguns vestibulares o Newsweek é reacionário demais.

      ¾ Pensei na UNICAMP, somando esta a outras informações paralelas. Achei também que o Enéas se referia à prova de Geografia. Com o tempo fui me acostumando a este entrosamento no Anglo, um professor matava a cobra e outro mostrava o pau.

Capítulo XXIV

      ¾ TCHAU, João.

      ¾ Até amanhã, Cazuza. Ei, você viu o coroa?

      ¾ Está aí, no corredor, observando aquela classe.

      ¾ É mesmo! Bem, então tchau... Ô Mestre, você não estava com pressa?

      ¾ Heim?... Ah, sim, vamos indo.

      Descemos a escada e o coroa parecia procurar alguma coisa. Olhava para todos os lados. Lá embaixo me convidou a tomar um café sem sequer me fitar. Vasculhou a cantina inteira com os olhos, sem dizer uma palavra. Quase derrubou o copinho de café, ao pegá-lo. E eu também passei a olhar pra lá e pra cá, sem ver nada de interessante.

      Saímos. Tive a impressão de que o coroa estava retardando o passo. Entramos no estacionamento, que ficava ao lado do Cursinho e ele ainda deu uma olhadela para trás. Aí eu não me contive e perguntei:

      ¾ Perdeu alguma coisa?

      E ele respondeu secamente:

      ¾ Não, nada.

      ¾ Ô Mestre, você não está legal?

      ¾ Heim?

      ¾ Está sentindo alguma coisa? O X-maionese não fez bem?

      ¾ Ah, não, desculpa. Sabe que eu até esqueci que você estava do meu lado? Procurava um amigo, mas eu acho que ele não veio.

      ¾ É aquele seu colega que faz cursinho à noite?

      ¾ Ele mesmo.

      ¾ Você não sabe qual é a classe dele? ¾ perguntei.

      ¾ Humanas. Ele vai fazer Direito.

      ¾ Então vamos lá dar uma olhada.

      ¾ Eu já olhei, mas o que me preocupa não é isso. Não sei por que alguma coisa me diz que ele não está fazendo o cursinho.

      Nesse momento chegou o carro. Entramos.

      ¾ Afinal, ele faz ou não faz cursinho para Direito? ¾ indaguei.

      ¾ Não sei. Pode ser que tenha me pregado uma peça.

      ¾ E por quê?

      ¾ Sei lá, coisas do Amilton. Talvez para me convencer a fazer a matrícula.

      ¾ Continuo sem entender... Ele não pagou a matrícula?

      ¾ Sim.

      ¾ Então. Provavelmente ele faltou hoje porque tinha algum compromisso. Você sabe melhor do que eu como são os médicos.

      ¾ Talvez você tenha razão. Sim, é isso mesmo. Ele dava plantão às quartas-feiras, e hoje é quarta-feira, ¾ concluiu o coroa.

      ¾ Se você quiser podemos mudar a aula de Inglês para a terça-feira. Sobraram vagas.

      ¾ Bobagem. Se eu quiser me encontrar com o Amilton existem meios mais simples. Era só uma cisma. Não sei porque eu fui pensar nisso.

Capítulo XXV

      DEIXEI o João no saguão da Faculdade e subi para a minha sala. Não havia muito o que fazer e isto foi um grande alívio, pois depois de sete aulas eu necessitava de um descanso. Mas não era sono o que eu sentia. Era algo diferente e difícil de explicar, caro leitor. Era algo que eu aprendi a sentir depois dos quarenta. Um desejo de solidão, mas que não era uma solidão verdadeira. Para ser sincero, abomino a solidão e gosto de estar acompanhado, mesmo quando estou viajando nas estrelas. Pois eu estava a fim de viajar nas estrelas e sabia que, de alguma forma desconhecida, estava entrando em sintonia com o Universo. Se quiser, chame isso de meditação, mas eu acho que é mais do que isso.

      Não era a primeira vez que eu me sentia assim; até então, eu já havia viajado umas cinco vezes. Só que desta vez eu demorei para me aperceber, talvez pelo fato de estar no cursinho quando tudo começou. Eu devia ter desconfiado. A preocupação com o Amilton fora o prenúncio.

      Com efeito, não havia por que me preocupar com isso. Era quase sempre assim! Começava, e sem motivos, a procurar pelos ausentes e a ignorar os presentes. Até que a solidão se instalasse de vez.

      Como das últimas vezes, achei melhor entrar na onda. Nada fiz para evitar. Sabia que nada de mal poderia me ocorrer e que, acima de tudo, eu estava entrando numa fase muito gostosa e que se repetia ciclicamente. Às vezes durava dias, outras vezes durava meses, e o único efeito negativo, se é que posso chamar assim, é que me tirava a concentração necessária aos estudos. Com efeito, era estranho ter acontecido agora, numa época de transição, com um ano de cursinho pela frente. Quem sabe desta vez dure pouco, pensei.

      Lembrei-me da primeira vez que isto aconteceu. Alguma coisa me atormentava e um pesadelo começou a freqüentar meus sonhos. Com medo de enfrentá-lo, eu estava quase me transformando num zumbi. Foi então que algo me envolveu e me levou para o espaço sideral. Vez por outra uma voz interior repetia: destrua-o. Mas não me dizia como. E eu o enfrentei e o que era pesadelo passou a ser uma série de sonhos maravilhosos; e durante meses viajei por inúmeros mundos, reais e encantados.

       A segunda vez também foi gratificante. Valeu-me por uma terapia de dez anos. Problemas familiares me atormentavam e eu me sentia como que à beira de um abismo e com uma necessidade premente de ultrapassá-lo. Só não havia como. Novamente algo de misterioso me envolveu e, embora apavorado, nada fiz para evitar. Foram apenas três dias. Durou o suficiente para me permitir cortar o mal pela raiz. Realizei algumas viagens pelo tempo e numa delas regredi aos meus cinco anos de idade. Localizei o foco principal do problema e ele deixou de existir.

      A partir de então, e definitivamente, eu perdi o medo de entrar em contato com o Universo. E aprendi que nem sempre os contatos surgiam quando eu estava com problemas, mas sempre me traziam soluções.

      ¾ Professor, ¾ era a Solange, ¾ tem alguns alunos aí querendo falar com o senhor. O senhor vai atender? Parece que eles estão querendo criar um D.A.

      ¾ Mande-os entrar, ¾ falei. ¾ Peça à Diná que nos traga uns cafezinhos.

Capítulo XXVI

      SEI O QUE você está pensando e isto, caro leitor, está me deixando um pouco preocupado, posto que, e como você já deve ter percebido, eu tenho um carinho muito grande pelos meus leitores e, em especial, por aqueles que conseguem chegar até o fim de meus livros, mesmo sem entender. E é bem possível que você não tenha entendido o capítulo anterior e, com muita razão, está sobressaltado. Ou, quem sabe, até raivoso. Ou então desconsolado e arrependido por ter comprado este livro que eu sei que não foi barato.

      Sei também que se você quisesse um livro de ficção teria ido procurá-lo em outra prateleira e não onde este livro foi encontrado. E ainda sei que se você estivesse preocupado com essa história de contato com o Universo, ou Consciência Cósmica, você, e nisto também lhe dou razão, teria procurado um especialista no gênero, tal como Huberto Rohden.

      Então inclui este capítulo para sossegá-lo, visto ser ainda muito cedo para que você procure seu analista.

      E já que expus o seu pensamento, gostaria agora de expor o meu, e temo que possamos divergir. Com efeito, você não está com tantas razões assim; se não, vejamos: Que me diz do título do livro? Convenhamos que há aí algo de misterioso e, portanto, não tem sentido eu ficar apenas falando na paixão de João pelas pernas da Glorinha. Concorda comigo? Pois é, o título exige que eu coloque uma pitadinha de misticismo, junto com os demais ingredientes. Mas é como eu disse, será apenas uma pitadinha. A menos que ¾e quanto a isso é melhor você consultar o Medina¾ os personagens tomem conta do romance. Neste caso eu vou ter que seguir a trilha e aí, então, vale tudo.

      Quanto ao mais, eu gostaria de deixá-lo tranqüilo e ciente de que eu ainda estou sóbrio; e de que quem vai pirar até o fim do livro não sou eu e sim você. Mas ainda é cedo para isso.

Capítulo XXVII

      VOU APROVEITAR que estou sóbrio para falar no Edilson. Já está na hora.

      O Edilson é outro amigão, dos velhos tempos. Sim, põe velho nisso. Nós nos conhecemos de calças curtas e é bem provável que tenhamos jogado bolinha de gude juntos. Mas ficamos muito tempo sem nos ver. E isto aconteceu quando eu fui fazer Medicina e ele foi parar na Economia... Ou teria sido a Economia que parou?... Sim, é isso mesmo, foram fenômenos simultâneos. Aconteceram no tempo dos generais. E antes que você me pergunte qual deles, eu digo: foi quando os generais resolveram esclarecer o povo sobre quem manda neste país desde a Guerra do Paraguai. Mas deixemos isso pra lá.

      O Edilson também leu os meus livros de cabo a rabo e o último ele engoliu em menos de uma semana. Além da azia que teve, acho que também não entendeu nada. Mas, ao contrário do Amilton, não se preocupou; pelo contrário: achou o maior barato. É que ele já estava perdido no tempo e no espaço há bastante tempo e se alegrou ao encontrar um companheiro. De qualquer forma, ele foi bastante útil ao me ajudar a permanecer no status quo.

      Segundo o Edilson, eu sou um místico. Outros já me disseram isso e, em especial, a Laurinda, uma mãe de santo apresentada por uma amiga. A Laurinda achava que eu devia me dedicar à Astrologia. E no entanto sempre senti repulsão pelo estudo de coisas místicas. De certa feita o Edilson tentou me levar para a Ordem Rosa Cruz, que ele freqüentava há uns seis meses. Fui mais para agradá-lo. Cheguei a me filiar, paguei uma anuidade, e somente consegui estudar as monografias durante três meses. Acabei desistindo. Nada contra, caro leitor. Se você pertence à Ordem, ou está pensando em se filiar à mesma, meus parabéns. Tenho o maior respeito pelas Ordens Místicas e, em especial, essa que conheci, ainda que apenas por três meses. Mas o meu problema é que em misticismo, como em física, gosto de ser autodidata. Porém com uma diferença: não faço nenhum esforço para compreender coisas místicas. Não gosto de estudá-las e sim de senti-las.

Capítulo XXVIII

      RECEBI OS estudantes e mantivemos um papo agradável. Em geral, conversar com os jovens fazia-me bem. Orientei-os sobre alguns itens que julguei devessem constar do Estatuto do Centro Acadêmico. Porém, como a idéia estivesse ainda em fase embrionária, não nos aprofundamos em detalhes. E a conversa versou sobre política estudantil, evoluindo para a caótica situação nacional.

      Lamentamos profundamente o descaso de nossos políticos para com os costumes brasileiros. Com efeito, cada um que chega quer sempre deixar sua marca, por mais idiota, senil ou doentia que seja. Tal e qual o servente escolar que, no pequeno intervalo entre duas aulas, limpa o quadro-negro, esses homens, recém empossados, julgam-se no direito e dever de passar o apagador em nosso passado, transformando-nos num povo sem tradição. E as vozes que se levantam contra preocupam-se apenas em salvaguardar montes de tijolos que retratam páginas negras de nossa história.

      O assunto veio a propósito, pois o tema central era a denominação da entidade estudantil; e lembrou-se que o termo Centro Acadêmico, no passado propriedade do linguajar popular, de repente recebeu uma conotação oficial de associação comunista e, como tal, proibido por mais de uma década.

      Esclareci aos estudantes que neste aspecto o Brasil era hoje um país livre, mas que dificilmente o estatuto que eles se propunham a fazer teria uma duração maior do que a das Constituições da República. Tradição não é o nosso forte, falei.

      Após quarenta minutos despedimo-nos e, em virtude do adiantado da hora, fui para casa.

Capítulo XXIX

      TOMEI O ELEVADOR e desci ao estacionamento, já totalmente alheio aos problemas do dia-a-dia. Lá embaixo o Alemão tentou bloquear meu caminho:

      ¾ Mestre, você ainda está interessado num barco? Conheci um sujeito...

      ¾ Não, Esteves. No momento estou à procura de uma nave espacial. Se alguém quiser vender uma em bom estado, mande falar comigo. ¾ E me dirigi para o carro, pouco me importando com o seu espanto.

      Sim, caro leitor, você há de se lembrar que no capítulo XXV eu iniciei minha viagem às estrelas. Pois então, continuemo-la.

      Fui para casa imerso em minha solidão. Surpreendi-me então a me imaginar um peixe escapando às malhas da rede de um pescador. A cada rede vencida, outra de malhas mais finas surgia pela frente. Pensei em dar meia volta, mas a curiosidade venceu; e segui em frente até que...

      O semáforo ficou vermelho. Parei o carro e deixei momentaneamente de ser um peixe. Estava agora na Juvenal Parada, esquina com a rua da Mooca. E não sei por que a imagem do João me veio à cabeça. Engatei a primeira, tão logo o semáforo esverdeou, e prossegui. Atravessava o cruzamento quando um motorista afoito, vindo pela rua da Mooca, ultrapassou o sinal vermelho, cruzando pela minha frente. Quase nos chocamos e, não obstante, permaneci calmo; e lembro-me claramente de que sequer a mãe do dito cujo me veio à cabeça.

      Andei mais uns cinqüenta metros, ainda pensando no João, até que concluí: destinos cruzados. Sim, é isso mesmo! E se assim for, não adianta fugir. Está escrito nas estrelas. Sim, João, alguma coisa está sendo reservada para nós. E o Amilton e a Simone nada mais foram que instrumentos engendrados pelo destino. Nosso encontro não foi fortuito.

Capítulo XXX

      ESTRANHA REDE nos lança o destino. Suas malhas vão se apertando cada vez mais até que...

      Lembrei-me da segunda  vez que vi João. O garoto me admirava. Durante oito sábados, numa classe com apenas dezoito alunos, mantivemos um relacionamento razoável. Cheguei mesmo a gostar da forma como ele me chamava de Mestre. Mas em nenhum momento pensei que iríamos além disso. Agora, no entanto, algo me dizia que nossa amizade deveria se modificar, amadurecer, evoluir.

      Estava na rua Oratório, em frente ao prédio onde, em minha juventude, fora o Cine Patriarca. Segui mais um quarteirão e me preparava para entrar à direita quando ouvi claramente uma voz, ao meu lado, que dizia:

      ¾ Não siga este caminho; tome um atalho.

      Instintivamente obedeci à ordem, prosseguindo pela Oratório, mas logo me dei conta de meu engano. O significado da mensagem era outro, mesmo porque eu tornara o caminho mais comprido. Olhei para os lados, mesmo sabendo que não iria encontrar ninguém, e perguntei:

      ¾ Quem é você?

      E a voz me respondeu:

      ¾ Você saberá após a Grande Batalha.

      Não tentei perguntar mais nada, pois pressenti que a viagem às estrelas houvera terminado. Estava novamente em terra firme e, de certa forma, desorientado. Fora a viagem mais curta que fizera; e, ao contrário das anteriores, não me trouxe soluções e sim um enigma a ser decifrado: Caminho?... Atalho?... Grande Batalha?...

Capítulo XXXI

      A SEGUNDA SEMANA de aulas terminou sem mais incidentes. João se enturmou com os de sua idade, de modo que até a quarta-feira seguinte mal nos cumprimentamos.

      Na quarta-feira, após a aula de Inglês, João estava eufórico e enquanto retornávamos para casa não parava de falar:

      ¾ A Simone hoje pagou um sapo na aula do Tadeu. Sua estratégia não funcionou. Eu quase cai da carteira quando o Tadeu perguntou: A senhorita de trancinhas, qual é o seu nome? E a gozada que ele deu enquanto ela lia o exercício? Eu quase chorei de tanto rir. Depois eu olhei para ela sorrindo e ela me mostrou a língua. A senhorita de trancinhas ficou possessa. Ainda bem que hoje é quarta-feira, senão, você já viu: eu ia ter de agüentar a cara amarrada dela da Consolação até a Mooca.

      Quando estávamos chegando, perguntei-lhe:

      ¾ João, você vai viajar?

      ¾ Não, Mestre, ¾ respondeu, ¾ vou aproveitar a Semana Santa para colocar as tarefas complementares em dia.

      Descemos do carro e desejamo-nos boa Páscoa. Estávamos prestes a nos despedir quando João perguntou:

      ¾ Mestre, você vai fazer Laboratório de Redação? São oito aulas de duas horas.

      ¾ Sim, mas não agora, ¾ respondi. ¾ Ainda não me acostumei a assistir aulas em dois períodos. As sete aulas de hoje me deixaram exausto. Vou deixar o Laboratório para o mês de junho.

      ¾ Você se importaria em dar carona para a Simone? Ela está sem condições de assistir ao Laboratório porque o pai dela não gosta de dirigir à noite.

      ¾ Ora, mas será um prazer, ¾ falei.

      ¾ Bem, então até segunda. Eu vou até o bar do Seu Joaquim, na Marcial. O Rodrigo deve estar lá me esperando.

      ¾ É melhor você ir de elevador, ¾ falei. ¾ A passagem pelo térreo foi bloqueada, de modo que você precisará pegar a rampa do primeiro andar.

      ¾ Então vamos.

Capítulo XXXII

      ¾ RODRIGO, há quanto tempo!... Ué, cadê a Glorinha?

      ¾ Está chorando as pitangas em casa. Eu não falei que o José era um mau caráter? Pois ela o viu no Shopping Norte com outra garota. Uma piranha.

      ¾ Tanto melhor. Eu também não fui com a cara dele. A Glorinha merece coisa melhor.

      ¾ Como o Simão, por exemplo? ¾ acrescentou Rodrigo.

      ¾ Como o Simão, ¾ concordei.

      ¾ Daqui a pouco ele chega. Às quartas-feiras ele sai mais cedo, ¾ falou Rodrigo. E mudando de assunto: ¾ Amanhã nós vamos para São Vicente, com o meu pai. O Simão também vai e você vai no carro dele.

      ¾ Não. Vou aproveitar a Semana Santa para estudar. Eu tenho prova no Cursinho dia 20 de abril. Jair, traz uma loura pra nós.

      ¾ Você é quem sabe. Mas o Caneco não vai gostar de ir sozinho. Por falar nisso, ele vem vindo.

      ¾ Olá, jovens! João, amanhã eu passo na sua casa às cinco horas.

      ¾ Eu não vou.

      ¾ Ah, deixa de enfrescar que você não é disso.

      ¾ É que a boneca precisa estudar, Simão, ¾ falou Rodrigo.

      ¾ Ora, você nunca foi CDF! O que é que está acontecendo? Acho que o Cursinho não está te fazendo bem. Onde já se viu perder um programa desses? Bom, vamos ao que interessa: Jair, mais um copo.

        Primeira bateria,
        vira, vira, vira,
        vira, vi...

      Onze horas. Seu Joaquim se dirigiu à mesa.

      ¾ Hoje vamos fechar o bar à meia-noite. Amanhã é feriado e não trabalhamos em feriados.

      ¾ Sossegue, Seu Joaquim! ¾ falou Simão. ¾ Amanhã nós vamos acordar cedo.

        Segunda bateria,
        vira, vira, vira,
        vira, vi...

Capítulo XXXIII

      SEGUNDA-FEIRA.

      Eu acabara de entrar em classe quando o João me chamou:

      ¾ Mestre, sente aqui.

      ¾ Olá, João, como foi que passou a Semana Santa?

      ¾ Estudando. Eu gostaria que você desse uma olhada na redação que fiz. O Cazuza andou fazendo umas críticas e eu não estou concordando com ele.

      ¾ Deixe-me ver.




.
.
                    O Consumismo

.

     Sábado à noite, luar coberto por poluição. Trânsito cerrado na Ibirapuera. Pudera! Segunda não é feriado! Um garoto, aproveitador da situação, tenta me impingir uma caixa de chicletes.
    
¾ Sai pra lá, moleque, vê se te manca!
     Após muitas delongas, cheguei ao Shopping: fila pra estacionar, fila pra entrar no elevador, fila pra andar, fila pra tomar café, fila pra... Essa não! Lotação esgotada!
     Quem sabe se eu... Ops! Como tem gente mal educada neste mundo! Tem gente que empurra, tem gente que pisa, tem gente que amassa; e tem gente que compra, que compra...
    
¾ Eta vida besta, meu Deus!
     Tem poluição no ar e tem poluição na terra. Alguns querendo vender a qualquer custo; outros querendo comprar a qualquer preço. E dizem que o Brasil vai mal. E o pior é que vai! Só que os que dizem ou compram, ou vendem; e os que sofrem se calam... até quando?
     Senti saudades do meu tédio e "puxei o carro". Mais fila, mais trânsito. Num semáforo reconheci ao longe aquele moleque e o chamei. Com o dinheiro do cinema comprei o sorriso do garoto.
     E a lua piscou para mim.

.

      ¾ Espantoso!

      ¾ Gostou?

      ¾ Se gostei? Eu não conseguiria fazer nada melhor. Para ser sincero, nem pior. Estou sem inspiração nenhuma.

      ¾ Você não fez a redação?

      ¾ Não. Eu estou bloqueado.

      ¾ Você?

      ¾ Sim, eu. O bloqueio não é exclusividade dos jovens. Atualmente eu só consigo escrever temas meus; e este é do Zé Renato.

      ¾ Então você precisa fazer o Laboratório de Redação.

      ¾ Sim, mas vamos deixar para junho.

      ¾ Mestre, o Cazuza diz que eu não devia escrever em primeira pessoa...

      ¾ Bobagem. Isso é coisa do meu tempo. Sua redação está ótima e o Zé Renato vai adorar. Só não entendo uma coisa: sua linguagem é muito adulta. Custo a crer que isso tenha sido escrito por um jovem de 17 anos de idade. Posso tirar uma xerox?

      ¾ A vontade, ¾ respondeu João todo orgulhoso.

 

Índice

Capítulo XXXIV

Home Page