Espaço Científico Cultural

CHAMBERLAND E O PARAÍSO PERDIDO

 

1a. Parte - Chamberland
capítulos XIII a XXII

Capítulo XIII

      A CONVERSA SOBRE a XLona continuou animada.

      ¾ Eu quero ser o primeiro a andar na garupa, ¾ disse Rodrigo. ¾ Êi, que tal a gente ir acampar de moto? Conheço um camping em Cabreúva que é jóia. E eu tenho uma barraca pequena que dá para ser transportada na sua moto.

      ¾ Espera aí, eu ainda não ganhei a moto.

      ¾ Mas eu confio na sua lábia; o seu pai há de ceder.

      As sete horas chegou o Caneco.

      ¾ Oi gente! Você por aqui, João? A Glorinha está? Eu trouxe uma fotos tiradas em São Vicente; ela vai gostar de ver. O Rabelo revelou na oficina dele. Você também aparece, Rodrigo.

      ¾ A Glorinha está lá dentro, Simão, ¾ respondeu Rodrigo. ¾ Mas fique aqui um pouco até saber da nova. O João...

      ¾ Vamos comer uma pizza na São Pedro, ¾ interrompeu Simão. ¾ Lá vocês me contam as novidades.

      ¾ Pizza outra vez, não ¾ retruquei. ¾ Já não agüento mais comer pizza.

      ¾ Bem, se vocês estiverem a fim de gastar uma nota, podemos fazer outro programa, ¾ disse Simão. ¾ Eu hoje estou recheado.

      ¾ Tenho uma idéia melhor. ¾ Vamos na cantina do meu velho. Faz tempo que ele está nos convidando.

      ¾ Negativo, ¾ emendou Simão. ¾ O teu coroa não vai liberar o suco de cevada, ¾ e olhou para Rodrigo que imediatamente concordou.

      ¾ Aí é que vocês se enganam. Ele recebeu vinte caixas de Serra Malte, que é uma delícia; e não vê a hora de contar vantagens. Em todo o caso, eu fico no guaraná e o Rodrigo, de vez em quando, dá um bico na sua cerveja sem que o velho perceba.

      ¾ Se é assim, só falta chamar a Glorinha.

      ¾ Não sei não, ¾ disse Rodrigo. ¾ A Glorinha chegou do cinema agora,...

      ¾ Xá comigo, ¾ falou Simão enquanto entrava na casa de Rodrigo.

      ¾ Acho que a Glorinha não vai querer ir, João. Essa euforia do Simão não vai durar muito.

      Mas o Rodrigo se enganara. Em menos de meia hora Glorinha veio completar o quarteto. Linda como nunca.

Capítulo XIV

      A SEGUNDA VEZ que vi João foi há um ano, na Faculdade São Judas. Como da vez anterior, João tentava se inscrever em um curso de extensão universitária. E o professor era eu!

      A secretária do setor de pós-graduação compareceu à minha sala:

      ¾ Professor, tem um garoto aí querendo se inscrever para o seu curso. Pelo visto é colegial. O garoto é insistente, e o professor Airan pediu que eu viesse consultá-lo. O que faço?

      ¾ Não aceite, ¾ falei de supetão. ¾ O curso é livre, mas não tanto.

      ¾ O.K., obrigada.

      ¾ De nada.

      Será que não estou sendo muito exigente, pensei. Não! Não posso fazer isso. Não será a última vez que dou esse curso. O garoto cresce, entra na Faculdade, e aí poderá assistir a quantos cursos quiser.

      Doía-me tomar essa atitude. Mas... se o ensino no Brasil está uma merda, o que posso fazer? A escola ensina pra molecada que a luz é ondulatória e obriga-os a aceitarem esta verdade. Daí eu mostro para um moleque desses que a luz pode ser corpuscular. O guri gosta, se convence, diz que o seu professor não está com nada, e começa a se utilizar de um instinto abolido pela escola moderna: a imaginação. Mas aí se depara com o vestibular. E os melhores vestibulares do Brasil têm a mesma bitola que a escola moderna. E o garoto vai pro pau. E o culpado sou eu.

      É, não é fácil ser educador neste país, pensei.

      ¾ Triiiiimmmm...

      ¾ Alô.

      ¾ Professor, ¾era a secretária pelo interfone, ¾ o garoto está insistindo em conversar com o senhor.

      ¾ Aceite o garotão, ¾falei em tom mais cordial. ¾ Ele merece por ser insistente. Diga-lhe, no entanto, que chegue meia hora mais cedo no primeiro dia de aula e venha conversar comigo.

      E não é que ele veio?

Capítulo XV

      EM POUCOS MINUTOS estávamos no Brás. Simão estacionou o carro defronte à cantina. Desci da fusqueta e ajudei Glorinha a sair da traseira. Glorinha se adiantou com Rodrigo e Simão e o Onofre veio ter comigo:

      ¾ Bonita sua garota, patrãozinho. Quando é o casório?

      ¾ É apenas uma amiga, Onofre, mas que é bonita isso lá é. Tome conta do possante que o Simão é de casa.

      ¾ Pode deixar.

      Nem bem entramos, meu pai exclamou:

      ¾ Ora, até que enfim vocês vieram! ¾ O coroa estava alegre. ¾ Como vai, Glorinha? Rodrigo... Simão, eu tenho uma cerveja especial para os amigos. Veio do Rio Grande do Sul.

      ¾ O João já deu um toque, seu Francisco. Pelo visto é muito boa.

      ¾ Se é, ¾ falou meu pai. E olhando para mim: ¾ Mas pode ir tirando o cavalinho da chuva, seu desmancha-prazeres, porque na minha casa só bebem os maiores de idade. Mas vamos sentando. Alfredo, acompanhe os meus amigos até o fundão. Lá eles vão se sentir mais à vontade. Daqui a pouco eu vou pra lá com vocês.

      Atravessamos o salão principal, que estava quase lotado; passamos então por um hall, onde ficavam os frios, e chegamos ao fundão: era outro salão, quase do tamanho do primeiro, e ainda estava vazio.

      ¾ Esta é a ala nova,  ¾ falei.  ¾ Foi inaugurada há menos de um mês.

      ¾ Bastante aconchegante, ¾ acrescentou Glorinha enquanto se sentava no lugar indicado por Alfredo.

      Minutos após:

      ¾ O que é que vai, patrãozinho?

      ¾ O que você sugere, Alfredo?

      ¾ A lasanha ao forno está caprichada; e tem também o macarrão da mama...

      ¾ Não. Esse eu prefiro comer em casa. O que você acha da lasanha ao forno, Glorinha?

      ¾ Pra mim está ótimo.

      ¾ Pra mim também ¾ disse Simão, enquanto Rodrigo balançava a cabeça positivamente.

      ¾ Então é isso aí, Alfredo. Traga também uma Serra Malte pro Simão e guaraná pro resto.

      ¾ Bem geladinha, Alfredo, ¾ acrescentou Simão.

      ¾ Eu prefiro uma água, ¾ disse Glorinha.

      ¾ Pois não, senhorita, ¾ concordou Alfredo. ¾ Se quiserem se servir de frios, estejam à vontade.

      Vinte minutos mais tarde:

      ¾ Quer dizer que logo logo você vai estar de moto, João? ¾ Simão não se conteve com o que Rodrigo lhe sussurrara aos ouvidos.

      ¾ Pssssiiiiiu. Fale baixo que o meu pai vem vindo. Ele ainda não sabe de nada. E depois não é logo, é daqui a um ano; e isso se eu passar no vestibular.

      ¾ Ora, nós precisamos catalisar este processo. Olá, seu Francisco, a cerveja é divina. O senhor não vai se sentar com a gente?

      ¾ Não, eu estou muito ocupado. Vim apenas ver o que estão achando da lasanha.

      ¾ Aposto que está melhor que a cerveja, ¾ opinou Glorinha.

      ¾ Como é, Simão? Desistiu da macrobiótica? ¾ disse o coroa enquanto Simão garfava a lasanha. Simão quase engasgou, mas acabou saindo pela tangente.

      ¾ Sabe como é, seu Francisco, eu sou contra o fanatismo. É muito bom conhecer a macrobiótica, mas...

      ¾ Sei, sei. Eu entendo. Mas vou deixar vocês à vontade. O serviço me chama. Bom apetite a todos.

Capítulo XVI

      NA SAÍDA meu pai nos acompanhou até o carro.

      ¾ O fusca parou de dar trabalho, Simão?

      ¾ Sim, seu Francisco, ele agora está jóia. O único problema é o preço da gasolina. Eu estou até pensando em trocar por uma moto. O senhor sabe lá o que é fazer trinta quilômetros com um litro?

      ¾ Mas... e com essa chuva que está ameaçando? Como é que iria ser de moto?

      ¾ Ora, seu Francisco, tem jeito pra tudo. Com a tecnologia atual a gente se molha menos de motocicleta do que de carro, podes crer. Por falar nisso, não é em agosto que o João faz dezoito anos?

      ¾ Sim.

      ¾ Então porque o senhor não o convence a aceitar uma moto? Com ela bem regulada, ele vai e volta do Cursinho com menos de um litro de gasolina. O senhor já pensou na economia?

      ¾ Ah, não sei não. Mas vou pensar no assunto.

      ¾ Tchau, seu Francisco, a chuva está chegando.

      ¾ Até mais, Simão. Tchau Glorinha; tchau Rodrigo! Voltem sempre.

      ¾ João, vais ganhar uma moto em agosto, ¾ concluiu Simão assim que entramos no carro. ¾ Bota fé no que eu digo. Agora só depende de você. Não vá com muita sede ao pote. Use apenas doses homeopáticas. No mais, deixe as coisas acontecerem naturalmente.

Capítulo XVII

      SEGUNDA-FEIRA chegamos cedo ao Cursinho, eu e a Simone, uma ex-colega do Colégio, e ficamos numa mesa da cantina conversando.

      ¾ Acho que amanhã podemos vir mais tarde, ¾ falou Simone com ar de enfado. ¾ O meu pai nem me deixou terminar o almoço direito; estava muito afobado e com medo do trânsito.

      ¾ E o trânsito estava livre! Tivemos sorte! ¾ exclamei. ¾ Mas isso é bom. Assim poderemos escolher bons lugares. Eu quero sentar bem na frente.

      ¾ Pois eu não. Não consigo ficar tete à tete com o professor. Eles sempre cismam com as garotas que sentam na frente: Menina, o que é isso? Olha a trancinha dela! Simone, leia aquilo etc, etc, etc. Pra mim chega.

      De repente se aproximou um rapaz que, ao que parece, estava meio perdido na cantina.

      ¾ Vocês são de Exatas? ¾ perguntou.

      ¾ Sim, ¾ respondi.

      ¾ E onde vai ser a aula?

      ¾ Calma, ainda é cedo. Nós ainda temos uns trinta minutos. Pelo visto devem estar varrendo a escola; as salas ainda estão fechadas.

      ¾ Meu nome é Cazuza. Posso sentar com vocês?

      ¾ Claro. Eu sou o João e a donzela ao lado é Simone, uma ex-colega do Colégio; e é o pai dela quem me dá carona.

      ¾ Olá.

      ¾ Muito prazer.

      Aos poucos foi chegando mais gente, até que a cantina se tornou intransitável. Então eu me adiantei:

      ¾ Acho bom a gente ficar perto da porta. Logo logo eles vão abrir.

      ¾ É, vamos lá, ¾ concordou Simone. E Cazuza nos acompanhou.

      ¾ Não foi fácil chegar lá. Do pátio divisávamos um trecho da rua Sergipe repleto de jovens. Seguimos em frente. Estávamos a uns cinco metros da porta quando abriram o setor de aulas. A porta dava para um pequeno saguão onde se via um cartaz de localização, seguido de uma escada. Li apenas o que me interessava: Turma A-35, Extensivo Exatas, sala 51.

      ¾ É por aqui, ¾ falei, ¾ no primeiro andar.

      ¾ Sentei-me na segunda fileira e Cazuza sentou-se ao meu lado. Simone ficou um pouco mais atrás. Conversávamos sobre o curso técnico que Cazuza fizera quando Simone me cutucou e sussurrou ao meu ouvido, toda animada:

      ¾ O Marquinhos está aí, na turma de Biológicas, na sala ao lado.

      ¾ Oba, eu vou falar com ele. Com licença, Cazuza.

      Não via o Marcos há mais de um ano, desde que ele se mudara para Higienópolis, e me alegrei com a notícia. Mas uma nova surpresa estava por surgir no caminho:

      ¾ Mestre! O senhor por aqui?  ¾ exclamei tão logo transpus a porta.  ¾ Que surpresa agradável! O senhor vai nos dar aula de Física ou de Biologia?

      ¾ Nem uma, nem outra. Desta vez estaremos do mesmo lado. Eu vim para assistir. Vai ser uma experiência interessante.

      ¾ O quê? Não me diga que vai fazer Cursinho? Pra quê?

      ¾ Física.

      ¾ Não, não foi isso que eu quis perguntar. Eu queria saber porque o senhor vem fazer Cursinho? O senhor é médico, dá aulas de Bioquímica, tem livros publicados de Física. Certamente o vestibular vai ser bico.

      ¾ Não, não é bem assim. Mesmo em Física e Biologia eu tenho muito o que aprender. E Geografia, História, Literatura, então? Dessas eu não sei nada. E o que dizer ainda da Matemática Moderna? Aliás, eu acharia bom você ir se acostumando a me tratar por você. Como eu disse, desta vez estaremos do mesmo lado. E por um ano inteiro.

      ¾ Certo. Mais uma coisinha: Quem tem diploma de curso superior não está liberado do vestibular? Eu ouvi dizer que sim.

      ¾ Não, a menos que sobrem vagas. Mas na USP isso quase nunca acontece.

      ¾ Eu também pretendo entrar na USP; e é bem provável que seja em Física.

      ¾ Seria ótimo. Tendo algum conhecido junto eu não me sentiria tão deslocado no meio da rapaziada.

      ¾ Eu estou na segunda fileira, Mestre. Se quiser, ainda tem um lugar ao lado.

      ¾ Não, obrigado. Eu vou lá pra trás. Sabe como é, problema de vista cansada, ¾ concluiu o coroa, ameaçando entrar.

      ¾ Ah, sim. Mais tarde a gente se vê. Foi um prazer encontrá-lo.

      ¾ Vamos entrando! ¾ Era o monitor do andar. ¾ O sinal já bateu.

      ¾ Oi Marcos, ¾ gritei ao vê-lo por trás do monitor, ¾ dá uma chegada aqui no intervalo.

Capítulo XVIII

      A ESSA ALTURA o leitor já deve ter notado que esta história tem dois narradores: eu e o João. E quem está falando agora, evidentemente, sou eu. Não é impossível que até o final do livro apareça mais um e este é um dos motivos pelos quais eu fiz a advertência inicial: Se ao ler este livro você pirar, o problema é seu. Os outros motivos você ou, quem sabe, o seu psicólogo, saberá no transcorrer da leitura.

      Como regra geral eu serei o narrador sério e o João será o mais descontraído. Um ou outro palavrão que se façam necessários ficarão por conta dele. A não ser uma merda que eu deixei escapar ao falar do ensino no Brasil. E isto, caro leitor, está me deixando bastante preocupado. Pois certa vez, numa reunião familiar, eu caí na asneira de dizer que determinado projeto era uma merda. Cruz, credo! Deu um bafafá desgraçado em família. Se alguém, desta vez, se dignar a vestir a carapuça, eu espero que não me cause tantos problemas como daquela.

      Mas voltemos ao que interessa. É possível que você esteja confuso ou preocupado em saber quem é o narrador principal. E eu esclareço: no momento sou eu. E assim será por mais alguns capítulos. E não obstante, e até agora, você há de concordar comigo que o narrador principal vinha sendo o João. E é por isso que eu gostaria de deixar claro que isso não tem a menor importância. O importante é você ter percebido que o personagem principal é o João e isto eu acredito que ficou bastante claro. Mas como, no contexto da história, nós finalmente nos encontramos, eu vou ter que dizer algo a meu respeito.

      Espero não cansá-lo.

Capítulo XIX

      EM PRIMEIRO LUGAR, e aqui entre nós, seria interessante eu contar a minha idade. Sabem como é: está na moda. A rigor não faria muita diferença, posto que você já percebeu que eu estou na meia idade. Mas você já viu alguma notícia de jornal em que a idade não seguisse um nome citado? Pois nem eu. Então lá vai: neste momento da história eu tenho quarenta e cinco anos mas, como eu disse, é bom que fique entre nós.

      Não, não é isso que você está pensando. Eu não estou escondendo a idade, não. Deixe-me explicar. Foi uma rata que eu dei logo na primeira semana do cursinho. A coisa se deu mais ou menos assim:

      Era intervalo. A aula seguinte seria de Geografia do Brasil, com o Demétrio. Cheguei da cantina, após saborear uma esfirra com um suco de laranja, e fui para o meu lugar com a classe ainda quase vazia. Perdi-me em pensamentos e, enquanto isso, a turma foi voltando e a classe foi se completando.

      Num dado momento eu fazia meus cálculos: até o vestibular eu estarei com quarenta e seis anos; o curso de Física tem quatro de duração; conseqüentemente, se não perder nenhum ano eu vou me formar...

      Foi aí que o Demétrio entrou. Entrou, se apresentou, disse a que vinha e começou a dar aula, falando sobre a extensão territorial do Brasil. De repente, e ainda nos primeiros minutos da aula, ele me viu. Aproximou-se e, em voz alta, perguntou:

      ¾ Qual a sua idade?

      E eu, tomado de surpresa, e com os neurônios ainda em fase de aquecimento, me precipitei e, em alto e bom tom, respondi:

      ¾ Quarenta e seis.

      Quando me dei por achado resolvi permanecer calado e me conscientizar que a partir dali eu deveria ter um ano a mais. Vocês já imaginaram a reação da juventude se eu não tomasse esse cuidado:

      Pô, o coroa pirou, não sabe nem a idade.

      Pois é. A minha presença em classe já não devia ser encarada como algo muito normal. Se eu começo a dar bandeira, então, vocês já viram o que poderia acontecer. Era preciso manter a imagem.

Capítulo XX

      NA QUARTA-FEIRA eu cheguei mais cedo, sentei-me, e fazia uma leitura sobre trovadorismo quando o João sentou-se à minha frente e puxou conversa:

      ¾ Mestre, você já se inscreveu para as aulas de Inglês? Elas vão ser em horário especial e começam a semana que vem.

      ¾ Ainda não, mas tem tempo. As inscrições vão até o final da semana, não vão?

      ¾ Sim, mas até lá as senhas vão acabar. Quem deixar para o fim fica sem escolher o horário. A Simone vai fazer de manhã mas eu não estou afim de me amarrar tão cedo. Então eu pensei em arrumar outra carona para o dia do Inglês. O oferecimento está de pé?

      ¾ Só tem um probleminha: a aula deve terminar às oito da noite e daqui eu vou para a Faculdade. É, eu acho que dá; eu dou uma espichada até a sua casa e...

      ¾ Não, me deixa na São Judas mesmo que está ótimo. O pai da Simone me deixa sempre na rua dos Trilhos. E de mais a mais, não convém que o meu pai saiba que eu tenho carona. Sabe como é, assim fica mais fácil ele me dar um carro em agosto.

      ¾ Certo. Só não entendo como você veio parar no Anglo da Sergipe. Não seria mais fácil a Tamandaré? A turma da zona leste vai toda para lá. A condução é mais fácil.

      ¾ A culpa é da Simone, ¾ falou João.

      ¾ Mulheres! Elas estão sempre modificando o nosso destino, ¾ acrescentei.

      ¾ E sabe por quê? ¾ completou João. ¾ Ela fez o cursinho lá, o ano passado, e não agüentava mais ver tanto japonês e coreano. Disse que eles estudam demais e isso a deixava deprimida.

      ¾ Ah, ah! Como se isso resolvesse! Olha, o Ponce está chegando e pelo visto vem com a corda toda. Pegamos a senha no intervalo. Quarta-feira está bom?

      ¾ Está ótimo. Eu vou para o meu lugar.

      ¾ Até mais.

      ¾ Meninos, vamos continuar com radiciação. Aula 2, página 126.

      O Ponce era um desses raros professores que parecem estar felizes ao darem aula. Com o tempo esta hipótese foi se confirmando. Principalmente em trigonometria, que durava quase todo o primeiro semestre. Ele vibrava com as demonstrações, em especial com aquelas que nos levam a situações notáveis: Fantástico, magnífico, sensacional! ¾ ele exclamava. Isto para não falar no show de bola que de certa feita ele deu em plena aula.

Capítulo XXI

      CREIO QUE é chegada a hora de falar como e porque eu vim parar no Cursinho. Você, leitor, deve estar curioso e isso reflete um certo preconceito de sua parte... Como não? Aposto que você achou a coisa mais natural do mundo o João ter-se matriculado no Cursinho; e ele nem precisou se preocupar em justificar este detalhe. Concorda comigo agora?

      Pois eu vou contar a minha história. Ela é comprida mas quem sabe eu consiga administrá-la em pílulas. Em todo o caso, dona Maria, se o feijão estiver no fogo, é melhor deixar para ler este capítulo mais tarde. Bem... eu avisei; e antes que o feijão queime eu vou entrar direto no assunto.

      Pra começo de conversa, eu digo que o responsável foi o Amilton, sem H. Como?... Quem é o Amilton?

      Ora, o Amilton é um amigão, dos velhos tempos. Mas para você ele é o doutor Amilton. Isso mesmo, somos colegas; com a diferença de que ele exerce a profissão e eu não mais. Aliás, já éramos colegas antes disso, como hoje eu e o João. Exatamente! Estudamos juntos e na mesma classe. E desde então cultivamos a amizade.

      Pois o Amilton acompanhou de perto a minha curta carreira médica, de onze anos. Para ser mais exato, nós fomos sócios e responsáveis, durante alguns anos, pelo Serviço de Nefrologia do Hospital Sorocabano, onde eu passei os meus últimos anos como médico.  E, desta forma, o Amilton assistiu a minha decisão de abandonar a medicina. Foram uns quatro ou cinco anos de indecisão, durante os quais eu estava mais pra cá do que pra lá. Até que, e por motivos que não vêm ao caso, mesmo porque, caro leitor, seria abusar da sua paciência, eu consegui me libertar da Medicina. E isto foi por volta de 1980.

      Continuamos amigos e o Amilton freqüentemente me bate um fone, quando não vem pessoalmente me visitar. Ah...

      ¾ Dona Maria!... Ô dona Maria, pare de sonhar... Acorde, dona Maria... O feijão vai queimar...

      Silêncio.

      ¾ Dona Maria!... Dona Mariiiiiaa! Ô, meu Deus, não é possível.

      Ah, pera aí que eu tenho um método infalível:

      ¾ Dona Maria, eu esqueci de dizer: o doutor Amilton é casado.

      Isso, dona Maria, vai dar uma olhadinha no feijão que eu vou deixar o resto da história para o próximo capítulo.

Capítulo XXII

      OLÁ, DONA MARIA, ficou bom o feijão?... Ótimo. Sim, pode ler este capítulo enquanto faz a digestão. Prometo que vai ser leve. Na realidade, ele é a metade do que iria ser o anterior.

      Como eu estava dizendo, o doutor Amilton é casado e tem quatro filhos... Não! Não é nada disso... Ou melhor... Sim, é isso mesmo, ele é casado sim, dona Maria, mas o que eu quis dizer é que isso não tem nada a ver com a história. Pô, a senhora está me atrapalhando! Desse jeito o livro não anda. Olha, não é por nada não, dona Maria, mas os outros leitores não devem estar gostando desse nosso diálogo. Dá um tempo. Logo é a vez do João entrar e eu ainda não consegui preparar o gancho para ele. Não me leve a mal.

      Como eu estava dizendo, o Amilton é um amigão. Posso comprovar isso pois ele foi um dos raros leitores que conseguiu ler os meus livros de ponta a ponta. E só por amizade, pois eu acho que ele não entendeu nada. E ele preocupou-se tanto, ao me ver perdido no tempo e no espaço, que achou que seria interessante eu cursar uma Faculdade de Física. Só assim eu encontraria alguém com quem discutir e em condições de me entender.

      Um dia o Amilton me aparece em casa afirmando que iria estudar Direito e queria saber se eu não toparia fazer cursinho junto com ele. A idéia me pareceu estranha, porém genial. Acho mesmo que, inconscientemente, eu estava esperando por algo semelhante há muito tempo. Cultivamos a idéia por telefone, durante alguns meses, até que optamos por fazer a matrícula no Curso Anglo. Como ele mora na Rebouças, o Anglo Sergipe parecia ser o ideal. Mas não conseguimos acertar os ponteiros. Com efeito, ele ia para a área de Humanas e eu para a de Exatas, e as classes eram diferentes. Além do mais, nossos horários não se encaixavam: eu só dispunha da tarde e ele da noite. Assim mesmo, fizemos a matrícula. Não foi possível unir o útil ao agradável mas, com o tempo, o cursinho acabou se mostrando, além de útil, também agradável.

 

 

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