////////Das ruínas emergiram duas grandes
teorias: a relatividade e a física quântica. E se, por um lado, tais teorias anulavam o
eletromagnetismo de Maxwell, por outro, e paradoxalmente, davam-lhe consistência. Com
efeito, e por mais que se diga o contrário, a física clássica não morreu; e a pretensa
revolução, se é que houve, ainda não se consolidou, conforme pode-se deduzir dos
currículos das escolas de física e dos pareceres emitidos, nas últimas décadas, pelos
mais eminentes físicos da atualidade. Aliás, dentre os seus criadores, incluindo os mais
pragmáticos e conformistas defensores da completeza da física moderna, não houve um que
ignorasse essa realidade. Heisenberg, por exemplo, assim se referiu
ao tema:
"Embora a física clássica seja o fundamento "a
priori" da física atômica e da teoria quântica, ela não é correta em tudo."
(1).
////////Os construtores da física moderna
nem sempre trilharam caminhos paralelos. Freqüentemente se desentenderam, degladiaram-se
mesmo, como soe acontecer nos períodos áureos de desenvolvimento científico. Desde
então, e até hoje, persiste uma amigável dissensão que, uma vez solucionada, entrará
para a história como um episódio de raro esplendor, a revelar o elevado grau de
maturidade científica de seus participantes. O difícil, a meu ver, será a tarefa,
destinada aos historiadores, de classificar as correntes científico-ideológicas que
polarizaram a física do século XX. Rótulos não faltaram: idealistas, materialistas,
neopositivistas, pragmáticos, existencialistas, realistas, racionalistas, etc. Não
obstante, sempre foi possível identificar tão somente duas importantes correntes de
pensamento, ainda que dinâmicas, ou seja, evolutivas, e ainda que cada uma comportasse,
respeitados os paradigmas que as caracterizavam, divergências internas. Sem demérito aos
demais e, no sentido de simplificar, podemos rotular tais correntes como: os que
pensam(avam) em consonância com Einstein e os que pensam(avam) em consonância com Bohr.
////////Dirá o
leitor, e com razão, que estou fugindo do tema; e que as querelas entre Einstein e Bohr
já foram por demais comentadas, pouco havendo a acrescentar. É verdade. Mas há um
aspecto sobre o assunto que me chamou a atenção (2)
e que gostaria, aqui, de insistir: muitos procuraram verificar onde Einstein ou Bohr
erraram; poucos procuraram verificar onde ambos acertaram. Por outro lado, e para
justificar minha fuga ao tema, direi o que não é surpresa para o leitor: a física
moderna firmou suas bases sobre o eletromagnetismo de Maxwell. Também não é surpresa
para o leitor que a física moderna leva a previsões corretas, o que, de maneira alguma,
justifica a atitude pragmática que, conforme apontou Selleri (3), leva-nos ao seguinte absurdo:
"Se uma idéia ou uma teoria funciona e promove o êxito, é boa, isto é, é
verdadeira." Mas, se o eletromagnetismo clássico levou-nos a teorias que funcionam,
uma teoria que oponha-se ao eletromagnetismo clássico deverá, para ser coerente, conter
os princípios que geraram estes sucessos, mesmo que nos aponte para uma direção
diametralmente oposta. E, com efeito, chegamos, em outros capítulos, a um sistema de
equações que, à primeira vista, e à luz da realidade física, denotam um certo grau de
incompatibilidade; incompatibilidade esta que se desfaz através de um raciocínio que,
embora estranho ao que nos acostumamos chamar por física clássica, apóia-se na lógica
clássica. E mais do que isso: leva-nos a enxergar como clássicos determinados efeitos
aparentemente não clássicos. Daí a razão da fuga.
b) Física e Realismo
////////Mas o quê, de fundamental, existe na
física moderna para que a consideremos não clássica? Qual é a nova estrutura lógica
que remodelou a física? Em que, fundamentalmente, e deixando o proselitismo de lado,
Einstein e Bohr discordaram? E em que concordaram? "Será o desenvolvimento
futuro ao longo da linha escolhida na Física Quântica, ou será mais provável que sejam
introduzidas novas idéias revolucionárias na Física?" (4) Não tenho a pretensão de responder,
a contento, a todas estas perguntas mas, sim, a de colocar o leitor frente a frente com as
mais elementares peças de um quebra-cabeças, ainda a ser montado, que polarizou a
coletividade de físicos de nosso século. Os parágrafos a seguir, por exemplo, foram
construídos de modo a denunciar o inter-relacionamento entre os seguintes termos:
realismo, física clássica (incluindo o eletromagnetismo), física quântica e
relatividade.
////////Falar em relatividade, a um tempo em
que somente estudamos, sem esgotar o assunto, campos estáticos (5), pode parecer uma tarefa imprudente, sendo
oportuno então esclarecer que vou apenas fazer uma abordagem heurística. E, com efeito,
a teoria da relatividade restrita teve, como finalidade inicial, livrar a teoria de
Maxwell de aparentes contradições. São de Einstein as seguintes palavras, que se seguem
aos postulados da teoria em sua primeira apresentação:
"Estes dois postulados são suficientes para chegar a uma
eletrodinâmica de corpos em movimento, simples e livre de contradições, baseada na
teoria de Maxwell para corpos em repouso." (6)
////////Por corpos
em repouso entenda-se cargas elétricas e portadores de correntes elétricas; tanto é que
alguns autores (7) traduziram esta
expressão, originalmente em alemão, por corpos estacionários.
////////Segundo Hawking, a relatividade geral
é uma teoria clássica, posto que "ela não dá conta do princípio da incerteza
da mecânica quântica, como deveria fazer, para ter consistência com outras teorias"
(8). A grande maioria dos físicos da
atualidade parece não se utilizar desta linha de demarcação, proposta por Hawking,
entre física clássica e moderna. Em geral, a relatividade é considerada uma teoria não
clássica; no entanto, os caracteres clássico ou moderno aparecem-nos, quase sempre, como
de distinção subjetiva. French, por exemplo, ao comentar a transição entre a
relatividade de Galileu e a de Einstein, diz: "Surgiram conseqüências
aparentemente opostas à nossa intuição e ao nosso senso comum, coisa que não acontecia
com as teorias clássicas." (9)
Note-se que o princípio da incerteza também gera conseqüências que se opõem à nossa
intuição e ao nosso senso comum.
////////Freqüentemente
ouve-se dizer que, segundo Einstein, a estranheza do princípio da incerteza repousa em
seu caráter não realista. Ora, o realismo é uma "doutrina medieval (em
voga no renascimento, quando do desenvolvimento da física clássica), originada na
teoria das idéias de Platão (e portanto, em princípio, não se opõe ao
idealismo), segundo a qual os universais existem por si, independentemente das coisas
em que se manifestam" (10).
Se aceitarmos esta definição para o realismo e, ao que tudo indica, Einstein a aceitou,
pelo menos em parte e, se procurarmos verificar, nos vários estágios de conhecimento
pelo qual o homem passou, o que lhe significou os conceitos "universal" e
"coisas em que se manifestam", constataremos que, em última análise, nada mais
estaremos fazendo do que acompanhar a evolução do realismo; e a evolução do realismo,
como veremos, confunde-se com o que chamamos história das ciências empíricas.
////////Conseqüentemente, estando a teoria
quântica apoiada na experimentação e levando, como leva, a previsões que se confirmam
experimentalmente, certa ou errada, queiramos ou não queiramos, ela é uma teoria
realista, como realistas são todas as teorias da ciência experimental.
////////Mas se ciência e realismo se
entrelaçam, que dizer das correntes científicas classificadas como antagônicas ao
realismo? A resposta é simples: Não existe antagonismo. Em verdade, a ciência clássica
desenvolveu-se sob o clima de realismo herdado da ciência antiga. Em meio aos sucessos
que então se verificaram, surgiram as linhas ou correntes interpretativas da realidade
científica; ou seja, o realismo desdobrou-se em facções. Alguns cientistas conservaram
a generalidade e, conquanto não tenham fundado nenhuma corrente nova de pensamento
científico, passaram a ser taxados de realistas ou neo-realistas. Outros, a exemplo dos
positivistas, amputaram partes da ciência; não obstante, sendo cientistas, são também
realistas e, como tais, desenvolvem teorias de elevado valor científico, conquanto
restritas às suas convicções íntimas.
Continua em Parte II:
2- A Evolução do Realismo