Elétron 2.3


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Sobre a Natureza Físico-Matemática do Elétron

1. Introdução
2. Modelo matemático do campo de um elétron
3. O referencial inercial
4. O campo (x,b) do elétron em movimento

 

 

3. O Referencial Inercial

Conforme visto no parágrafo anterior, é possível se pensar numa carga elétrica coulombiana, em particular aquela localizada num condutor esférico, como sendo redutível a elementos infinitesimais da cujo campo dx é dado por (6a). Isto, por si só, sugere a existência real do campo x, bem como nos estimula a evoluir um pouco mais no sentido da matemática à física. Com efeito, e até o momento, assumimos a validade de uma série de equações sem nos preocuparmos com os referenciais nos quais as mesmas são descritas. Pode-se no entanto perceber que tais equações se mostram consistentes apenas no referencial do laboratório de Coulomb, ou seja, naquele em que vivemos. Mas não é esse o mesmo referencial em relação ao qual Newton deduziu suas leis da mecânica? Ou, se quisermos ser mais rigorosos, as leis de Newton não são válidas num referencial muito próximo daquele em que vivemos, e ao qual se convencionou chamar referencial inercial? Mas o que é um referencial inercial? Direi que um referencial inercial é aquele no qual um elétron, que mantenha constantes suas características P e   fismat01.gif (896 bytes), gera campos x e b [5] dados pelas equações (5).

A título de brevidade, chamarei por referencial próprio àquele no qual o elétron em estudo mantém P e fismat01.gif (896 bytes) constantes. Este é o referencial apropriado para a análise matemática do campo eletromagnético do elétron posto que o mesmo é função de K, fismat01.gif (896 bytes)e Image166.gif (856 bytes). Em particular, se o referencial próprio for um referencial inercial, o campo eletromagnético do elétron é função apenas destas três variáveis, conforme se pode avaliar pelo estudo das equações (5). Pode-se também dizer, com restrições, que o referencial próprio é aquele no qual o elétron está em "repouso"; as restrições justificam-se, tendo em vista que não foram explicitadas hipóteses sobre a estrutura interna do elétron. Conseqüentemente, este "repouso" não leva em consideração uma possível estrutura dinâmica para o elétron.

Os referenciais próprios não inerciais [6] subdividem-se em duas categorias:

  1. aqueles nos quais o campo eletromagnético é função periódico-estacionária do tempo; constituem exemplos importantes os campos produzidos por eletrons ou protons constituintes de átomos e moléculas em suas configurações estáveis.

  2. aqueles nos quais o campo eletromagnético é uma função não periódico-estacionária do tempo; dizemos, nestas condições, que o elétron emite radiação eletromagnética.

É de se notar que a teoria de Maxwell não comporta este tipo de classificação para os referenciais.

No restante deste artigo, salvo disposição em contrário, admitirei que os referenciais próprios considerados são inerciais. Convém, então, distinguir duas condições particulares:

3.1. Observador situado no referencial próprio (inercial):

Neste caso os campos x e b estão bem definidos. Destaca-se, em oposição ao eletromagnetismo clássico, a existência de um campo de efeitos magnéticos originado por agentes causais em "repouso". Observa-se ainda que o parentesco matemático entre o campo dB de um elemento de corrente (lei de Biot-Savart) e o campo db do elemento de volume dV dado por (6b) não é fortuito. Ao que tudo indica, e ao contrário do que afirma a teoria dos eletrons livres de Drude e Lorentz [7], o campo dB de um elemento de corrente, a exemplo de db , depende da "densidade de carga eletrolítica do circuito", ou seja, do número de partículas efetivamente transportadas por unidade de volume, e não da velocidade dos agentes causais. Os possíveis efeitos relativísticos, no sentido clássico do termo, são desprezíveis no que tange à gênese destes campos.

O escalar K, da expressão (1), parece conter segredos relacionados aos referenciais inerciais, que somente a física experimental pode decifrar. Seria extremamente interessante verificar se o seu valor absoluto, uma vez definido, permanece ou não idêntico, qualquer que seja o referencial inercial considerado. A variabilidade de K seria um indício fortemente sugestivo a corroborar a intuição de Newton quanto à existência de um referencial absoluto.

3.2 Observador situado em referenciais inerciais impróprios:

De acordo com a teoria de Maxwell, e seguindo a nomenclatura adotada neste artigo, o campo magnético B é uma exclusividade dos referenciais impróprios. Como vimos, isto não ocorre com b e, portanto, não há porque nos preocuparmos com justificativas sobre sua suposta origem relativista. O importante é notar que x e b estão interligados através de j   e fismat01.gif (896 bytes) ¾  equações (2) ,¾ e, conseqüentemente, caso ocorra a modificação de um destes campos, quando da mudança de referencial, é de se esperar que o efeito tenha repercussão sobre o outro.

Os campos x e b, quando observados de referenciais impróprios, manifestam um efeito que se relaciona a um fenômeno descrito por Liénard (1898) e Wiechert (1900) para os potenciais da teoria de Maxwell. Este efeito deve ser analisado com extrema cautela posto que x e b são funções de duas variáveis: j   e fismat01.gif (896 bytes). Ambas contribuições são interessantes, porém aquela devida a fismat01.gif (896 bytes) assume extrema importância epistemológica, visto ser a que, ao não ser levada em conta, gera conseqüências funestas para a física clássica. A desconsideração desta parcela, a meu ver, colocou em evidência a pedra fundamental sobre a qual se apoiou a teoria da relatividade de Einstein. Vamos então, e por etapas, evoluir o modelo matemático apresentado, em busca da justificação do efeito Liénard-Wiechert.

Em virtude de o campo (x, b), do elétron, poder ser expresso em termos de gradiente de uma função de posição j , podemos conjecturar sobre a existência real de "alguma coisa" emitida pelo elétron, a que chamarei informação eletromagnética (i.e.m), e que se propaga para o espaço circunvizinho. O caráter de j , dado por (1), sugere ainda mais: que as i.e.m., uma vez emitidas, se conservam, a menos que surja um sorvedouro em seu caminho. Em outras palavras, direi que o elétron é uma fonte emissora de i.e.m. e tal que o fluxo de i.e.m. que atravessa uma superfície qualquer se identifica com o fluxo de um campo vetorial h dado por

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(7)

Está implícito, nestas considerações, que h é do tipo

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(8)

sendo r um invariante que representa a densidade local de i.e.m., e c é a velocidade com que as mesmas se propagam no referencial próprio. Conseqüentemente, h se transforma segundo a expressão

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(9)

com c' = c + v, em que v é a velocidade do elétron emissor, quando observado do referencial impróprio considerado.

Vejamos agora como fismat01.gif (896 bytes) se transforma. Seja então um observador, situado em um ponto Q de um referencial inercial, e um elétron movendo-se, em relação a este referencial, com uma velocidade v constante. Direi, então, que o versor fismat01.gif (896 bytes) se manifesta ao observador em Q sob a forma de um outro versor fismat01.gif (896 bytes)’, ou seja, fismat01.gif (896 bytes) sofre uma aberração, conservando o seu módulo unitário. Para o cálculo desta aberração, observados os pontos chaves definidos na figura 1, deve-se proceder da seguinte forma:

     
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  Figura 1: Aberração de fismat25.GIF (888 bytes) (fismat25.GIF (888 bytes)Þ fismat25.GIF (888 bytes)'). P = posição do elétron num instante t em relação a um referencial inercial impróprio onde o elétron viaja a uma velocidade v constante e mantendo fismat25.GIF (888 bytes) constante, e no qual o observador está em repouso em Q. P' = posição do elétron num instante retardado t' no qual o campo que chega a Q em t foi gerado.  

a) determinar o ponto P', admitindo-se que "o campo se propaga" radialmente a uma velocidade c, quando analisada do referencial próprio;

b) unir os pontos P, P' e Q;

c) traçar por P um tronco de cone com vértice em P e que contenha fismat01.gif (896 bytes) em sua superfície, e com eixo na direção Image174.GIF (929 bytes);

d) transladar o cone juntamente com fismat01.gif (896 bytes) para P';

e) rotacionar o cone em torno de P' e segundo um eixo perpendicular ao plano da figura ¾  plano PP'Q ¾ até que o eixo do cone se situe na direção Image175.gif (947 bytes).

f) o versor obtido por esta rotação de fismat01.gif (896 bytes) é o versor  fismat01.gif (896 bytes).

Referências:

  1. A idéia de definir referenciais inerciais a partir das equações de campo, é antiga. Não obstante, esta prática, conquanto essencial, não é muito enfatizada em livros de texto, posto que as teorias clássicas de campo têm-se mostrado, a esse respeito, incompatíveis entre si (o leitor poderá encontrar algo a respeito em BUNGE, M., Controversias en fisica, Editorial Tecnos S.A., Madri, pp. 88-92, ou então nos vários trabalhos que procuram justificar o nascimento da física relativista). Voltar

  2. Dizer que um elétron está em "repouso" em relação a um "referencial não inercial" é o mesmo que dizer que ele está sob a ação de forças newtonianas quando observado de um referencial inercial newtoniano. Voltar

  3. Este assunto é discutido em detalhes no livro citado na referência 3, pp. 27-31. Voltar