From: "Alberto Mesquita Filho" To: Date: Fri, 15 Sep 2000 22:06:23 -0300 Subject: [ciencialist] Realismo (Era MOUSE-LER) http://www.egroups.com/message/ciencialist/5899 -----Mensagem Original----- De: "Francisco C. Brito" Para: Enviada em: Sexta-feira, 15 de Setembro de 2000 19:39 Assunto: Re: [ciencialist] MOUSE-LER > > "Ao filósofo trata-se de uma questão que faz sentido, > > dentro de sua maneira de pensar; ao cientista realista a árvore promoveu > > ruído e ponto final." > Então, se a árvore caiu e ninguém, e nem nada capaz de ouvir, estava > próximo para ouvir, a árvore faz barulho ao cair? Perceba que acima eu dei a entender que iria raciocinar de maneira não filosófica, ou seja, iria amputar, no sentido único e exclusivo de valorizar a praticidade, partes do raciocínio filosófico. Filosoficamente falando o assunto é bem mais intrincado mas podemos pensar analogicamente. Pergunto então: antes dos astrônomos terem calculado com precisão as possíveis órbitas dos planetas conhecidos, Netuno existia? Ora, Netuno não era visível a olho nu e também não produzia nenhum efeito conhecido. Outra questão: Ontem à noite deixei meu carro na garagem e fui dormir; hoje de manhã o carro estava na garagem. Pergunto: o carro existiu durante a noite? Outra pergunta: antes da era das comunicações, o que dava a certeza ao homem mediano e conhecedor do heliocentrismo, bem como do giro da Terra, que o Sol iria "nascer"? Para este homem mediano, o Sol existe durante a noite? > Eu arrisco a afirmar que não, pois o ruído é uma interpretação que os > cérebros fazem de determinadas vibrações de partículas. Se não há um > cérebro para interpretar a vibração, será que há ruído? Ou côr? ou cheiro? > ou sabor? Parece-me que você está confundindo dois termos que Demócrito teria chamado por "conhecimento autêntico" e "opinião". A "opinião" seria a interpretação que o cérebro faz, de maneira quase irracional, daquilo que se nos aparenta como "propriedades físicas", quais sejam, ruído, cor, cheiro, sabor, etc. "O conhecimento autêntico é completamente distinto: quando o objeto é demasiado pequeno e não pode ser conhecido através da opinião, não pode ser visto, ouvido, cheirado nem tocado; quando se exige maior profundidade ao conhecimento, então atua o autêntico, que possui um instrumento para captar a verdade: o pensamento" (Demócrito, 460-370 a.C). Perceba que "eu sei" que meu carro existiu durante a noite pela utilização do pensamento, da mesma forma que sei que nesta hora o Sol está iluminando alguma face da Terra, ainda que aqui esteja escuro. Da mesma forma sei que uma árvore caída produziu ruído ao cair. Negar o realismo é quase sinônimo de negar o princípio da repetitividade que sustenta todas as ciências. Não por outro motivo Einstein insistiu na inconsistência do princípio da indeterminação que, a seu ver, representava uma negação ao realismo. Hoje existem versões quânticas que pretendem justificar um possível realismo quântico, a compatibilizar realismo e princípio da indeterminação (sistemas de dois níveis correlacionados a caracterizarem um único "universal" correspondente ao realismo clássico). Ou seja, o realismo clássico admite a existência de algo que em determinadas condições não se vê. A teoria quântica atual admite a "existência" de um "sistema de dois níveis correlacionados" e este sistema complexo existe independentemente de estar ou não sendo observado. Ela interpreta o universal a sua maneira sui-generis e conserva o realismo. O princípio da indeterminação não nega a existência do sistema nem a possibilidade de seu "descolapso" mas sim a sua "quebra" ou "descolapso" anterior à experimentação. Sem dúvida, é uma sacada genial, pois se negarmos o realismo poderemos promover a aposentadoria compulsória de todos os cientistas, pois estaríamos negando a regra da repetitividade. [ ]'s Alberto http://www.ecientificocultural.com/indice.htm