From: "Alberto Mesquita Filho" To: Date: Mon, 15 May 2000 04:44:44 -0300 Subject: Re: [ciencialist] (unknown) http://www.egroups.com/message/ciencialist/4742 -----Mensagem Original----- De: "Roberto Belisario" Enviada em: Domingo, 14 de Maio de 2000 22:26 Assunto: Re: [ciencialist] (unknown) > > E onde estão os jovens rebeldes nascidos após 1920? > > Se isso ajudar em algo: > São rebeldes todos os que acreditaram na Teoria de Kaluza-Klein, depois > das Cordas, depois Supercordas, e finalmente Teoria M, ... > São rebeldes todos os que acreditam na Teoria do Universo Inflacionário, > entre os quais seu criador, Alan Guth. ... > Foi rebelde o norte-americano Murray Gell-Mann e todos os que > acreditaram na sua teoria dos quarks ... Sim, mas são todas rebeldias moderadas ou, até mesmo, consentidas ou permitidas, pois não ferem, e nem mesmo incomodam os paradigmas da moda. Não me parecem caracterizar um período revolucionário da física, pelo menos não no estilo daqueles provocados por: 1) Copérnico, Galileu, Newton, dentre outros; 2) Carnot, Mayer, Joule, dentre outros; 3) Ampère, Faraday, Maxwell, dentre outros; 4) Einstein, Lorentz, Poincaré, dentre outros; 5) Bohr, Heisenberg, Schrödinger, De Broglie, Einstein, dentre outros. Esta é uma relação muito pequena de pessoas que realmente incomodaram os acadêmicos de sua era (e é essa uma das condições a caracterizar a rebeldia). E além desses, que perpetuaram seu nome na história, existe uma infinidade de outros que propuseram idéias que também iam contra os paradigmas da época e, como tais, foram criticadas, testadas e, por fim, abandonadas. Pode ser que eu me engane, mesmo porque é difícil obter uma visão temporal da era em que se vive, mas a esse respeito há uma frase de Einstein que não me sai da cabeça: "Os físicos teóricos da nossa geração estão esperando o surgimento de uma nova base teórica para a Física". Quantas gerações já se passaram desde então? E no entanto, estamos esperando, esperando, esperando... Até quando? Seria isso o período de ciência normal? Um período de espera? Mas esperar o quê? Com efeito, os paradigmas estão se acomodando mas... até quando? Será que os físicos não se dão conta de que há 40 anos eles eram muito mais importantes para a sociedade do que são hoje? Não vou recuar mais no tempo porque irão dizer que o prestígio relacionava-se à guerra. Mas há 40 anos existia apenas a guerra fria que não estava mais na mão dos físicos mas na dos políticos, generais e engenheiros. Pois hoje o que vejo é uma tecnologia em evolução e uma física estagnada e desprestigiada pela população. É possível que esteja enganado, mas é como vejo. > O que eu vejo é que é muito mais fácil ser rebelde hoje do que antes de > 1930. Pode não parecer, mas para mim é uma constatação preto-no-branco. Em termos de rebeldia moderada, consentida ou permitida, pode ser que você tenha razão. Mas será que isso realmente pode ser chamado rebeldia? > Além disso, rebeldia nem sempre implica em avanço. Eu tinha um colega no > curso de Física que acreditava no éter (chegou a chamar seu cachorro de > Éter!). Nunca conseguiu explicar satisfatoriamente como adequar o conceito > de éter aos experimentos pós-Michelson-Morley, mas mesmo assim cria no > éter. Sem dúvida era um rebelde. Mas um rebelde reacionário. Pois esse é um preço que temos que pagar. Mas nem é tão caro assim! Estou propondo uma atitude popperiana. Estes indivíduos sequer conseguem sustentar um diálogo, quanto mais construir hipóteses falseáveis pela experimentação! O que mais existem são teorias alternativas a ressuscitar o éter. Algumas até interessantes. Por acaso fazem previsões falseáveis experimentalmente e com equipamentos que dispomos na atualidade? Se fizerem, que pelo menos sejam respeitados, ainda que afrontem os paradigmas vigentes. > Paradigmas não são dogmas, não importa o que Kuhn tenha dito depois de > seu livro principal. Sem paradigmas, os conceitos científicos caem numa > situação anárquica. Caem no que Kuhn chamava de período pré-paradigmático, > que, apesar de também poder ser chamado de científico (dependendo da forma > como definimos Ciência), é bem diferente do que se entende por Ciência > modernamente. Mas maus pensadores podem transformar paradigmas em dogmas, > assim como podem transformar qualquer coisa em dogma. Talvez precisássemos definir o que são bons ou maus pensadores. Ou vamos aceitar esta definição como um consenso ou paradigma? Mas aí cairíamos num raciocínio cíclico. Aliás, uma das críticas que se poderia fazer à teoria de Kuhn é justamente essa: Ele admite uma sociedade perfeita a se ajustar a sua filosofia. > Períodos de ciência normal não são períodos de decadência ou marasmo; e > nem todos os períodos de evolução correspondem aos períodos > revolucionários. Kuhn deve ter revirado no túmulo por causa disso. Aliás, > excesso de teorias revolucionárias indica justamente a existência de um > período pré-paradigmático. A Ciência não avança apenas com teorias > revolucionárias, e Kuhn enfatiza bem isso no seu livro. Não obstante, ele chega a afirmar: "Somente quando os esforços de articulação fracassam é que os cientistas encontram o terceiro tipo de fenômeno: as anomalias reconhecidas, cujo traço característico é a sua recusa obstinada a serem assimiladas aos paradigmas existentes. Apenas esse último tipo de fenômeno faz surgir novas teorias." (cap. 8, p. 131 da edição de 1975 da Ed. Perspectiva) > Ele enuncia diversas maneiras pelas > quais a ciência pode progredir nos períodos de ciência normal: > determinação de leis quantitativas usando o paradigma existente (ex.: leis > empíricas sobre escoamento de fluidos); uso do paradigma existente para > realizar pesquisa básica teórica ou experimental, ou mesmo novas > tecnologias; verificação experimental de previsões do paradigma existente; > estabelecimento de novas aplicações do paradigma; e o que Kuhn chama de > "articulação do paradigma" no nível teórico, que é a sua clarificação por > meio de diferentes formulações (ex.: as mecânica analítica de Lagrange e > outros). Todas essas coisas são exemplos de avanços científicos que > ocorrem tipicamente em períodos de ciência normal. O capítulo 2 de "A > estrutura das revoluções científicas" ("A natureza da ciência normal") > detalha como a ciência normal avança. Qualquer teoria passa por essas etapas, independentemente dela ser aceita como teoria da moda ou não. O problema, a meu ver, não está na maneira como uma idéia evolui mas se o progresso da ciência implica necessariamente na adoção de modismos. [ ]'s Alberto http://www.ecientificocultural.com/indice.htm