From: "Alberto Mesquita Filho" To: Date: Sat, 15 Apr 2000 23:56:34 -0300 Subject: [ciencialist] Filosofia da Ciência (era: Mecanismo da existencia) http://www.egroups.com/message/ciencialist/4558 -----Mensagem Original----- De: "Roberto Belisario" Enviada em: Sábado, 15 de Abril de 2000 14:38 Assunto: Re: [ciencialist] Filosofia da Ciência (era: Mecanismo da existencia) > Em muitos casos, dá para considerar a reprodutibilidade em sistemas > sociais, mas em muitos isso é impossível na prática. > No final das contas, eu vejo que a diferença que existe entre sistemas > sociais e físicos é o número de variáveis e o modo como elas se comportam. > Em sistemas sociais, as variáveis são incrivelmente numerosas, e se > relacionam de modo extremamente não-linear, gerando comportamentos > caóticos (alterações minúsculas provocando efeitos catastróficos). Exatamente! Creio que você chegou ao "xis" da questão ao dizer que isto é praticamente "impossível na prática"; e justificou muito bem o porquê. Porém, o fato de uma disciplina possuir um objeto de estudo complexo, em virtude de possuir um número de variáveis muito grande, não deveria, a meu ver, servir como argumento a excluí-la da área do saber dotada de cientificidade (ou seja, da ciência). Caso contrário eu seria obrigado a pensar que a física é mais ciência do que a química que é mais ciência do que a biologia que é mais ciência do que a psicologia que é mais... até chegar no limite em que a cientificidade seria nula, e aí estaríamos fora da ciência. Alguma coisa está errada nesta regressão, ou não? Mesmo porque, após isso deveríamos chegar no terreno não científico (arte, teologia, etc) e aí a regressão parece-me não continuar: o número de variáveis pode ser 1 ou pode ser 10 e a acientificidade é a mesma. > De qualquer forma, independentemente de tudo isso, as frases "Não > podemos assumir que um campo do conhecimento seja não científico pelo > simples fato de não encontrarmos nele teorias científicas" e "Ciência, a > meu ver, traduz-se muito mais por uma postura do que por uma delimitação > em áreas" parecem-me explicar muito bem o que você quer dizer. Sim, e parece-me que a idéia de ciência como "não-limite" (no sentido matemático do termo) apresentada acima reforça esses argumentos. > Existem muitas zonas cinzentas em qualquer definição do que seja > Ciência. Já tentei várias vezes reconhecer que características definem um > assunto científico ou um tratamento científico, e sempre encontrei > exceções dentro de atividades reconhecidamente científicas. Realmente. Um livro que trata desse assunto de maneira "light", a meu ver, é "O que é ciência afinal?", de A. F. Chalmers, Editora Brasiliense (tradução), 1993. Não obstante, ele não responderá suas dúvidas, pelo menos de maneira definitiva. > Um experimento num grande > acelerador de partículas é reprodutível? Em princípio sim, mas deve-se > gastar milhões ou até bilhões de dólares para repeti-los... Na prática, > eles são praticamente irreprodutíveis. Novamente, você colocou muito bem: "na prática". Conquanto a prática seja importantíssima para a ciência, até mesmo sob o ponto de vista econômico e político, para não dizer o tecnológico, devemos procurar por uma definição científica dotada de lógica e apoiada na universalidade temporo-espacial. Nem sempre o que hoje é impossível está condenado à impossibilidade eterna. A esse respeito, costumo dizer também que não concordo com aqueles que dizem que na antigüidade não se praticava ciência, idéia essa apoiada nessa aparente impossibilidade prática. A ciência, como a vejo, é milenar. O que ainda é apenas secular é a arrogância apresentada por alguns cientistas a assumirem que são os pais da ciência. Os descendentes desses falsos cientistas irão dizer, daqui a mil anos, que nós somos alquimistas. Não estou aqui me referindo ao alquimismo esotérico e coisas afins, pois que esoterismo não combina com ciência. O que quero dizer é que existiram na antigüidade homens que foram tão ou mais cientistas do que nós: Arquimedes e Zenão (práticos por excelência) e Demócrito (teorizador) para citar apenas três exemplos que me ocorreram. > Sem falar nas ressalvas (de Thomas Kuhn, por exemplo) sobre o > procedimento real dos cientistas no processo de descoberta. Por exemplo, > já vi em mais de um lugar que, com os dados obtidos por Coulomb sobre a > força elétrica, era impossível distinguir entre a força dependente do > inverso do quadrado da distância e outra forma qualquer que não fosse > muitíssimo diferente desta. Existem muitos exemplos como esses e também de outras naturezas e muitas vezes associados ao acaso e, até mesmo ao erro. Já ouvi dizer que Planck só chegou à quantização da luz porque cometeu um erro de cálculo elementar. Não sei dizer se procede mas sei que a dedução somente foi aceita como incontestável após Einstein, bem mais tarde, ter chegado à mesma equação por método diverso. > Talvez ele tenha sido influencidado pela analogia com a > força gravitacional de Newton. Um cientista que age assim está dando um > tratamento científico ao assunto? Voltamos ao questionamento inicial: O que é ciência? E o que é postura científica? E é por isso que costumo dizer que a ciência começa pela intuição e que a intuição precede o método científico. Perceba então o porquê da valorização da postura científica na minha caracterização do que seja ciência. Pois todo progresso científico tem sua origem na intuição, mas a recíproca não é verdadeira. A analogia citada é um dos procedimentos mais rudimentares relacionados à intuição que, muitas vezes, é complexa demais para ser compreendida. Sabe-se lá o que passou pela cabeça de Einstein ou Bohr antes de chegarem a expor o resultado de seus trabalhos. Não obstante não posso em sã consciência acreditar que a postura científica de Einstein começou a se revelar apenas após ele ter equacionado suas "idéias malucas". > Porém, "heresias metodológicas" como essas > são cometidas o tempo inteiro pelos cientistas... Seriam realmente heresias? Ou representariam a primeira etapa da atividade científica e sem a qual estaríamos ainda na idade da pedra? [ ]'s Alberto http://www.ecientificocultural.com/indice.htm PS: Responderei brevemente sua outra mensagem.