From: "Alberto Mesquita Filho" To: Date: Mon, 18 Sep 2000 13:45:15 -0300 Subject: Re: [acropolis] A Rapidez do Tempo - segundo Manuel Bulcao http://www.egroups.com/message/acropolis/3601 Olá, Manuel, Evandro e demais membros da Acrópolis Conforme prometi, vou discorrer alguma coisa em resposta à msg do Manuel e também à resposta do Evandro, em especial na parte que me toca. Esclareço, inicialmente, que a idéia de "fluxo do tempo" não é minha mas, como espero ter esclarecido anteriormente, estava contida no título da msg original do zk, qual seja, "O tempo realmente flui?" postada no uol.educacao.ciencia.astronomia. O que eu afirmei a respeito, na época, foi o seguinte: "Muito interessante sua maneira de filosofar sobre 'o presente não ter início nem fim, nunca começar e nunca terminar'. Pois é exatamente aí que surge a noção de fluxo, um conceito abrangente mas que 'pode sempre ser relacionado a alguma coisa que flui ou corre através de uma fronteira real ou imaginária: uma corrente de água, uma rajada de metralhadora, o som, a luz, a lava de um vulcão... ou mesmo a humanidade que flui através da história'. Para quem observa o fluxo, não há como abstrair-se de possíveis fronteiras imaginárias. Não obstante, para quem faz parte do fluxo (seja uma molécula, de água, ou mesmo nós, como parte da humanidade) é como se estivéssemos numa fronteira móvel a que damos o nome de "presente. Por falar em fluxo, e de sua relação com o tempo, não podemos esquecer de Heráclito, para o qual 'o fluxo era essencial à existência'. Como também não podemos ignorar os sábios conhecimentos orientais antigos a afirmarem 'tudo está em movimento'. Ou seja, não há nada em repouso e a existência é conseqüência do movimento. Esta maneira de pensar chegou a ser ressuscitada, na década de 30, por Einstein, ainda que num contexto um pouco diferente, quando iniciou sua vã procura pela teoria do campo unificado." Ou seja, sem endossar a idéia de "fluxo do tempo", comentei sobre a relação fluxo-tempo, o que é bem diferente. Espero ter deixado claro nos exemplos acima citados que os fluxos referidos não seriam de tempo mas sim de água, projéteis de metralhadora, vibrações sonoras, ondas eletromagnéticas, lava de vulcão e homens. O fluxo seria então uma das maneiras de retratarmos ou concebermos a idéia de tempo. Ao observar uma superfície por onde passa uma corrente de água, poderia dizer que existe alguma coisa a que darei o nome de tempo e graças à qual consigo entender a passagem da água através desta superfície. Seria o mesmo que dizer que pelo fato de existir o movimento, posso conceber a idéia de tempo. De maneira resumida, e não sei dizer se de todo certa, costumo afirmar que assim como a matéria ocupa o espaço, o movimento ocupa o tempo. Confusões deste tipo, entre movimento (ou fluxo) e tempo, são muito comuns em ciência e confesso mesmo que nem cheguei a me dar conta do absurdo contido no título da mensagem original. Respondi-a como se a mensagem meramente relacionasse o fluxo ao tempo, o que parece-me algo por demais óbvio. Um exemplo típico de confusão similar é o de calor com temperatura. A esse respeito cheguei a escrever num trabalho relativo a eletromagnetismo (www.ecientificocultural.com/electron.html): É importante, em física, saber distinguir certos conceitos aparentados. É clássica a confusão do principiante em termodinâmica entre calor e temperatura. Como é comum se pensar que o que flui num campo de velocidades é a velocidade. Raciocinando em termos de campo podemos conceituar o calor como a entidade que flui em um campo de temperaturas. O campo de velocidades é um pouco mais complexo; ou, quem sabe, um pouco melhor conhecido. Aí, o que flui pode ser encarado sob vários prismas: vazão ou volume de fluido que atravessa uma superfície na unidade de tempo; massa correspondente ao volume assinalado; quantidade de matéria, idem, expressa sob a forma de número de partículas elementares. Para cada prisma um valor, um número diferente que retrata a mesma coisa. Além do prisma podemos variar a óptica e pensar no que flui não no sentido da corrente mas em virtude do grau de liberdade e da coesão entre as moléculas de fluido. Assim sendo temos um fluxo de momento propagando-se perpendicularmente a sua própria direção: é um fluxo gerando outro fluxo ou, melhor dizendo, é um campo tensorial gerando um campo vetorial. O que flui num campo de temperaturas é chamado calor; o que flui num campo de velocidades pode ser chamado vazão e/ou momento; o que flui num campo eletromagnético chamarei informação eletromagnética. A informação eletromagnética pode existir ou não; existindo, pode ser importante ou não. Existindo ou não, o importante é perceber que o campo eletromagnético estacionário não se propaga, assim como calor não é temperatura. Conseqüentemente, a informação a que me refiro não é uma onda eletromagnética, embora uma onda eletromagnética transmita informação. Quanto à existência ou não do tempo, parece-me tratar-se de um problema de natureza semântica. Alguma coisa existe e a esta alguma coisa dou o nome de tempo. Talvez a duvida principal não resida no conceito de tempo mas no conceito de existência. E foi pensando nisso que escrevi, em minha resposta ao zk, o seguinte: Mas se pretendermos caracterizar o "existir" como decorrência do movimento, o que é uma outra maneira de dizer que "o movimento é essencial à existência", e como o movimento é decorrência do tempo, chegaremos a conclusão de que tempo e movimento não existem mas são entidades pré-existentes. E, com efeito, espaço, tempo, matéria e movimento são entidades não-físicas, ou seja, metafísicas. Aceitamos a sua existência mas eles são, com efeito, pré-existentes. E assim como ponto, reta e plano da geometria euclidiana, eles não têm definição. O que não significa dizer que não existem pois eles estão acima da existência: eles pré-existem [parece-me não haver muita diferença entre o que estou chamando de "pré-existência" e o ponto de vista de Kant, como comentado pelo Evandro - Nota acrescentada nesta msg]. Sob esse aspecto diria que as pedras fundamentais (ou os "pré-existentes") da física, como a enxergo, são cinco: 1. espaço 2. tempo 3. matéria 4. movimento da matéria 5. informação do movimento da matéria. A física newtoniana contém apenas os quatro primeiros elementos, deixando em aberto a unificação da mecânica com a gravitação, a não ser pela identidade do conceito força. A física moderna descaracterizou totalmente a física newtoniana ao confundir espaço com tempo e matéria com energia (movimento), graças a uma má interpretação (ação à distância, erroneamente atribuída a Newton) do conceito de campo, que estaria contido no quinto elemento citado. Os cinco elementos são fundamentais para a física que ora estou propondo em substituição à física moderna e a complementar a física newtoniana. Como não confundo espaço com tempo, na física que proponho não há como se falar em fluxo do tempo. Não sei se os relativistas modernos poderiam fazer esta afirmação com a mesma firmeza. O Manuel diz alguma coisa sobre "tempo próprio do fóton", coisa que para mim soa como sem sentido e deixaria qualquer consideração a cargo dos relativistas. [ ]'s Alberto http://www.ecientificocultural.com/indice.htm