UM ELÉTRON NÃO TÃO NEBULOSO - 1a. parte
Debate
acontecido no news uol.ciencia - fevereiro de 1998
Foram
reproduzidas apenas as mensagens de Alberto Mesquita Filho com respostas às
questões formuladas por seu oponente
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Msg 01
From: "Alberto
Mesquita Filho"
Newsgroups: uol.ciencia
Sent: Saturday, February 21, 1998 5:58 PM
Subject: Um elétron não tão nebuloso
Conforme prometi no tópico Onde estao os cientistas brasileiros (msg 27), relato abaixo alguns pormenores de interesse geral referentes a minha teoria sobre o elétron (vide A equação do elétron e o eletromagnetismo).
A teoria eletromagnética clássica, desenvolvida no século XIX, apoiou-se fundamentalmente em experiências que retratavam o comportamento macroscópico observado em sistemas dotados de cargas e/ou correntes elétricas. Pouco se sabia a respeito destas cargas ou correntes. Grande era o numero de físicos a duvidarem da real existência do átomo de Dalton; e, à exceção de algumas propriedades relacionadas à "natureza química" da matéria, pouco valor se deu ao significado físico das leis da eletrólise de Faraday e que pudessem conduzir à idéia de uma corrente elétrica produzida por partículas em movimento.
Sob esse clima surgiram as leis de campo de Maxwell. Macroscópicas em sua origem, macroscópicas em suas interpretações e macroscópicas em seus efeitos. E, acima de tudo, retratando a idéia vigente no século XIX: a de fluidos elétricos como agentes produtores destes campos.
Também sob este clima, ao final do século XIX descobriu-se o elétron (Thompsom). Como a teoria dos fluidos elétricos estava completa (teoria de Maxwell), não restou outra alternativa a não ser a de admitir que o elétron, a exemplo de uma carga elétrica, seria também, em essência, constituído por este fluido. A única exceção a esta regra, ou a única diferença aceita entre uma carga elétrica e um elétron, era a indivisibilidade deste ultimo. Ou seja, o elétron seria o quantum de fluido elétrico, nada mais do que isso.
Ora, dizer que o elétron é uma carga elétrica, posto que uma carga elétrica é formada por elétrons é quase tão absurdo quanto dizer que um átomo tem o formato de um avião, posto que um avião é formado por átomos; ou então, dizer que um tijolo é idêntico a uma casa e, como tal, possui portas, janelas, compartimentos internos (às vezes realmente tem, quando habitado por cupins), etc.
Esta idéia ¾a de identificar o elétron a uma carga elétrica¾ foi fortalecida por algumas experiências que, apoiadas neste absurdo, conseguiram "medir" o que passou a se chamar carga do elétron. Estas experiências nada mais constatavam do que: o elétron, em determinados campos, sujeita-se a determinadas forças; porem, nenhum dado experimental, e/ou de consistência lógica, justificava a conclusão de que tais forças tinham o mesmo significado físico daquele representado pelas forças coulombianas, conquanto ajustassem-se matematicamente a essa conclusão.
Essa idéia de "elétron carga-elétrica" logo mostrou-se incompatível com a experimentação. O numero destas experiências é enciclopédico, mas citarei apenas duas: a de Rutherford, que mostrou a fragilidade da teoria dos fluidos elétricos, comportando a hipótese ad hoc das órbitas permitidas; e a descoberta do spin dos elétrons (1924-6), algo que não combina com a idéia de elétron-fluido, ou seja, a de uma partícula essencialmente geradora de efeitos esfericamente simétricos, o que seria de se esperar de uma carga elétrica. Nem mesmo a idéia de spin como giro satisfaz os requisitos necessários, razão pela qual os físicos modernos de há muito já a abandonaram. Trata-se de um "spin" que não é um giro, ou spin.
Procurando por uma solução que não estivesse contaminada pelos absurdos apontados, cheguei a uma teoria eletromagnética apoiada na idéia de elétron partícula, e não fluido. Obviamente esta partícula deveria apresentar propriedades constitucionais relacionadas a este efeito spin e, sendo assim, propriedades relacionando sua constituição (o que é) a um vetor (como este "o que é" mostra-se para nós).
Ora, como partículas vetoriais em seus efeitos ¾e portanto com simetria cilíndrica¾ poderiam produzir entidades macroscópicas (cargas elétricas) cujo efeito (campo elétrico) manifesta-se por uma simetria esférica (lei de Coulomb)?
Um alfinete, ou uma agulha, tem simetria cilíndrica. Graças a essa simetria produz lesões típicas em nossos dedos. No entanto se você possuir uma pequena bola de isopor e prender na mesma uma grande quantidade de agulhas, lado a lado, até que o conjunto das agulhas assuma a aparência da bola interior, ou seja, uma simetria esférica, e estando as agulhas bem próximas umas das outras, elas "perdem" a propriedade de perfurar seus dedos. Você pode jogar este "porco-espinho" para um colega e este poderá pegá-lo no ar sem se machucar (Cuidado! A idéia é valida, mas se quiser aplicá-la procure ter certeza do que está fazendo antes de jogá-la).
Esta é a minha idéia de uma carga elétrica. A de um conjunto de partículas elementares dotadas de simetria cilíndrica constituindo um elemento macroscópico dotado de simetria esférica.
É obvio que as leis de força, no mundo das partículas elementares, devem ser bem diferentes daquelas observadas macroscopicamente (por exemplo, a lei de Coulomb). Mas não é isso o que se observa na prática? Percebam que não existe um único capítulo em livros de física moderna, qualquer que seja ele, que não retrate alguma situação na qual o elétron desobedece o comportamento esperado classicamente para uma carga elétrica.
Que dizer do elétron quando numa corrente elétrica? Ora, aí a coisa fica mais fácil. Afinal, um fio condutor retilíneo tem simetria cilíndrica. Conseqüentemente, o elétron deve mostrar algumas propriedades relacionadas à sua simetria cilíndrica (campo magnético) e que ficam de alguma maneira ocultas quando entram na constituição de uma carga elétrica ("porco-espinho").
Aí está, em linhas bem gerais, alguns dos fundamentos da minha teoria. Estou à disposição para responder às possíveis duvidas sobre o que disse bem como sobre a teoria apresentada no meu Web. À medida do possível, e sempre que a discussão comportar maiores esclarecimentos, procurarei apresentar outras idéias relacionadas à teoria e de interesse geral.
Msg 02
From: "Alberto Mesquita Filho"
Newsgroups: uol.ciencia
Sent: Saturday, February 21, 1998 10:55 PM
Subject: Re: Um elétron não tão nebuloso
Fabio Augusto da Costa Carvalho Chalub escreveu
Tenho MUITAS contestações a fazer, mas uma dúvida me parece particularmente interessante (eu gosto de fundamentos de mecânica quântica, apesar de minha área de trabalho ser outra).
A aceitação ou não da teoria quântica é uma questão de opção, como teria dito Popper e como Bohr deixou implícito em alguns de seus comentários a respeito. Por outro lado, e plagiando Laplace, "eu não necessitei desta hipótese" (teoria quântica) para desenvolver a minha teoria, e portanto não sou a pessoa mais indicada para comentar os possíveis absurdos da teoria quântica, bem como suas "magníficas" predições. Minhas hipóteses são apenas quatro. Se conseguir responder pelas mesmas, ou pela maneira como desenvolvi a teoria a partir destas quatro hipóteses, dar-me-ei por satisfeito. Quanto ao mais, procuro opinar apoiando-me em argumentos clássicos. Como já disse, é uma questão de opção. O vetor é um artifício matemático clássico; o spinor é um construto quântico.
Como você explica a experiência da dupla fenda, que nega completamente uma interpretação clássica do elétron, no sentido de dar propriedades de onda no que se pensava ser material (seja esférico, cilíndrico ou assimétrico)?
A sua afirmativa é válida para o elétron "clássico", ou seja, para o elétron aceito pelo eletromagnetismo clássico. Eu estou propondo uma partícula diferente, ainda que clássica, porém não no sentido que você esta adotando ao termo. A experiência da dupla fenda é muito simples; tão simples que pode ser explicada com argumentos propostos por Newton há nada menos do que 311 anos atrás: O elétron emite "informações eletromagnéticas" (espírito da matéria, segundo Newton) que, ao serem refletidas nas bordas das fendas, alcançam o mesmo após este ter cruzado o anteparo "por apenas uma destas fendas", exercendo então um efeito clássico. O elétron ondulatório, a meu ver, é uma ilusão, bem como o elétron spinorial.
Msg 03
From: "Alberto Mesquita Filho"
Newsgroups: uol.ciencia
Sent: Monday, February 23, 1998 3:45 AM
Subject: Re: Um elétron não tão nebuloso
Fabio Augusto da Costa Carvalho Chalub escreveu
Alberto Mesquita Filho escreveu
A aceitação ou não da teoria quântica e' uma questão de opção... Por outro lado, e plagiando Laplace, "eu não necessitei desta hipótese" (teoria quântica) para desenvolver a minha teoria, e portanto não sou a pessoa mais indicada para comentar os possíveis absurdos da teoria quântica, bem como suas "magníficas" predições.
Aceitar as hipóteses da teoria quântica até pode ser questão de gosto, mas uma teoria que a substitua tem que explicar os fenômenos experimentais que a mecânica quântica descreve tão bem.
Concordo com a idéia mas discordo de suas implicações, bem como da ultima frase. Alem disso, há que se levar em conta, também, aspectos espaço-temporais: Não posso, sozinho, e num curto intervalo de tempo, explicar o que milhares de físicos, a meu ver de forma não satisfatória, o fizeram em 80 anos.
A minha teoria, é uma teoria nascente. Se é boa ou não, não me cabe dizer. Até agora, ela me satisfez, e físico algum, até há bem pouco tempo, preocupou-se em me convencer de que estou errado. Fico-lhe muito grato pela consideração, mas sou obrigado a afirmar que nenhuma teoria pode ser derrubada a não ser através de suas hipóteses, e minhas hipóteses não são nem relativísticas nem quânticas.
Alem disso, é bom que se perceba que minha teoria não se propõe a substituir a teoria quântica; o que ela propõe, sim, é livrar a teoria eletromagnética clássica de conceitos sabidamente conflitantes, como por exemplo, a idéia de fluido elétrico. A teoria quântica, no decorrer do tempo, e ao lado de outras magias, substituiu o termo "fluido" por "nuvem"; posteriormente equacionou esta nuvem através de conceitos probabilísticos. Se ela seguiu ou não o caminho certo, volto a dizer, não sou a pessoa indicada para opinar, sob pena de perder-me em pormenores que em nada fortalecem ou enfraquecem minhas convicções.
Só para não parecer que mecânica quântica é uma brincadeira de físicos sem conexão com a realidade,...
Nunca pensei nisso. Quem afirmou algo parecido foi Jacques Barzun (caracterizava a ciência como um jogo). Jeremy Bernstein, por cima do pensamento de Barzun, afirmou: "Einstein, o maior cientista dos tempos modernos, quiçá da historia, tinha uma maneira quase infantil de manipular a natureza, como se virtualmente jogasse com os conceitos científicos".
Será que os demais físicos quânticos são tão diferentes de Einstein? Obviamente, não se trata de um jogo, ou brincadeira, "sem conexão com a realidade", e estou citando o fato não como critica a sua afirmação, mas para desmistificar um conceito mal estabelecido, o da "seriedade" da ciência.
Ha onze anos atrás eu escrevi o seguinte a respeito: "A física deve se apoiar em algo muito serio e deve dar origem a conceitos bastante sérios. O mais, é brincadeira, e nós fazemos parte desta brincadeira." Se alguém não entendeu o que eu quis dizer, e se sentiu ofendido, eu acho que esse alguém não gosta do que faz. Perdoe-me, então, este alguém, pela irreverência; a ofensa, se é que houve, não foi intencional.
... não se esqueça que coisas como diodo túnel, tomógrafo de emissão de pósitrons e a própria bomba atômica são fenômenos quânticos. ...
Eu diria que são fenômenos que comportam uma explicação quântica, mas jamais que são fenômenos quânticos. Isto cheira-me a lavagem cerebral. Por exemplo, se o "teletransporte" de fótons, anunciado recentemente por nossa mídia, tivesse sido realizado 10 anos atrás, ele teria ido contra os fundamentos da física quântica de então. Hoje já estão chamando o mesmo como "teletransporte quântico". E logo mais irão citar este "fenômeno quântico" como uma das miraculosas previsões da teoria quântica. O Popper deve estar se remoendo em seu túmulo.
... Isto sem falar nos problemas clássicos que a originaram (espectroscopia, efeito fotoelétrico e radiação de corpo negro).
Concordo que estes efeitos merecem uma explicação clássica; mas não com uma teoria apenas eletromagnética como a minha. Para tanto eu precisaria evoluir ou para uma teoria de campo mais geral, ou para uma teoria relacionada à constituição da matéria. Na minha imodesta opinião, já dei o primeiro passo. Tenho muitas idéias à respeito, até mesmo publicadas em livros, mas há muito o que ser feito para separar o joio do trigo. Todos nós estamos sujeitos a ter boas ou mas idéias. Nada como o tempo para convencermo-nos da necessidade de uma depuração. A "equação do elétron" não foi psicografada por mim. Ela é o produto de muitos anos de estudos e meditação. Junto com ela, outras idéias foram surgindo; algumas foram jogadas no lixo, outras foram arquivadas para uma possível evolução para uma teoria mais geral.
O que (em geral) não se gosta em MQ é a introdução da incerteza como ingrediente fundamental (Einstein criticava isto), a correlação instantânea a longas distâncias (paradoxo EPR) e a dicotomia observador-observável (Bohm criticou muito este ponto).
Eu acho que a incerteza foi uma das coisas mais bonitas que o Heisenberg "bolou"; lamentavelmente ele não conseguiu encontrar uma explicação clássica, e muito menos alguma variável oculta a colocá-la em padrões clássicos. Einstein chegou perto disso mas não quis sacrificar sua relatividade (O Bohr que o diga!). David Bohm chegou mais perto ainda, mas sua imagem estava por demais desgastada, até mesmo entre seus colegas que o indicaram para o prêmio Nobel. A história de Bohm é interessantíssima e tem muito a ver com o que chamei acima por "lavagem cerebral". Não digo que ele tenha passado por este processo, mas sofreu muito as conseqüências do mesmo.
O spin é incluído ad hoc para explicar problemas espectroscópicos
O spin quântico, sim. O spin clássico não foi incluído ad hoc, pois é um achado experimental: Em 1924, Stern e Gerlach observaram o comportamento dual do elétron em órbita ao ser lançado num campo magnético. Em 1926 Uhlenbeck e Goudsmit tentaram explicar o espectro da luz emitida por átomos contendo um único elétron admitindo que este girasse [o elétron, em órbita em torno do núcleo, giraria em torno de seu próprio eixo, tal e qual a Terra]. Obviamente este spin clássico vai contra os princípios quânticos: Se conhecermos o sentido de giro e a direção do eixo de um elétron, estaremos, no referencial da partícula, definindo todo o movimento do elétron, "o que é proibido pela teoria quântica".
...Existe um físico (me esqueci o nome) que recentemente em um congresso de física nuclear apresentou uma teoria clássica de espalhamento. Existe o modelo puramente quântico, a aproximação semi-clássica (aproximação de Born) e a dele ¾todas dão o mesmo resultado. Ele foi perguntado ao fim da palestra se acreditava em MQ, e respondeu taxativamente que não, mas estava pronto para fazer a primeira concessão: o spin.
Ou ele estava se referindo ao que chamei acima por "spin clássico", ou ele estava propondo uma nova teoria quântica não clássica. O spin quântico, ou simplesmente spin, é uma entidade quântica e, a meu ver, não ha como fugir disso. Se eu desprezar o principio da incerteza e conservar o spin, na realidade estarei criando um spin clássico. Volto a dizer que não sou a pessoa mais indicada para fazer observações deste tipo e relacionadas à teoria quântica, mas procurei apenas expor o que penso a respeito. Aliás, com a finalidade de evitar conflitos deste tipo, tenho evitado ao máximo, em minha teoria, o termo spin, o que não significa dizer que ignore os dados experimentais que levaram os físicos a admitir este "construto". É possível que este físico não tenha tomado esses cuidados.
O importante desta história (real) é que ele estava preocupado em construir uma teoria clássica consistente com resultados (pelo menos alguns mais gritantes) da MQ, e não em dizer que não acredita e ponto.
Pelo que entendi, ele estava propondo uma nova teoria clássica de espalhamento; eu estou propondo uma nova teoria eletromagnética clássica. Por outro lado, eu não desprezo o que a teoria quântica explica; simplesmente vejo a explicação com muita desconfiança, o que é bem diferente.
Acho que tenho utilizado muito mais palavras do que pontos e, sempre que possível, procuro justificar minha descrença em determinadas interpretações dos fenômenos observados. Desta forma, não entendi o trecho final do parágrafo acima. Será que você está confundindo interpretação com constatação?
Quanto a defender a consistência de sua teoria, isto não basta. Em matemática isto é muito importante, apesar de ser uma tarefa inglória (vide segundo teorema de Gödel). No entanto, em física é essencial o bom acordo com a experiência e a previsão de novos fenômenos, até então ignorados. Ser consistente em física é muito pouco, e relativamente fácil.
Na minha primeira mensagem de 21/02/98 eu afirmei: "Conforme prometi no tópico 'Onde estão os cientistas brasileiros', relato abaixo alguns pormenores de interesse geral referentes a minha teoria..." Não foi minha intenção, nem era este o propósito, defender a consistência da teoria neste newsgroup. Estou apenas colocando-me à disposição para responder pelo que escrevi. Acho mesmo que os demais freqüentadores do uol.ciencia devem estar vibrando com as nossas divergências; e eu, particularmente, sinto-me envaidecido por encontrar um oponente do seu porte. Sua preocupação procede. Apenas acho que a teoria, no Web, não está tão desprovida de fundamentos e/ou previsões quanto a frase dá a entender.
A sua teoria e muito parecida com as teorias de variáveis ocultas de David Bohm...
Com efeito. E eu relatei isso, de passagem, no final do item 2.5. Não obstante, qualquer semelhança deve-se muito mais ao fato de eu ter lido Newton (e certamente ele também leu), do que de ter sido influenciado por David Bohm, ainda que admire sobremaneira seu trabalho.
...(aliás, colaborador, neste tipo de questão, do próprio Einstein). Bohm incluiu um tal de potencial quântico para justificar certos fenômenos experimentais que não possuíam análogos clássicos.
O meu vetor A assemelha-se a este potencial, como também assemelha-se ao vetor potencial clássico A do eletromagnetismo.
... é a hamiltoniana clássica. Bohm abriu mão disto para construir sua teoria. O problema (como foi demonstrado por J Bell) é que tal teoria é não local, ou seja, admite ação instantânea a distância. Aliás, o teorema de Bell garante que qualquer teoria consistente, em termos de certas previsões experimentais, que seja realista (no sentido defendido por Einstein) será necessariamente não local (o teorema de Bell é bastante elegante e pode ser bem compreendido por qualquer um com conhecimentos equivalentes a graduação em física). As tais previsões experimentais se confirmaram, em particular numa experiência muito famosa de Alan Aspect, em 81.
Tudo isso é verdade. A título de esclarecimento aos demais usuários, eu diria que um dos textos mais didáticos a respeito do teorema de Bell foi escrito por Bernard d'Espagnat e pode ser encontrado na "Scientific American", cuja versão em espanhol (Investigation y Ciencia) saiu no volume 40. Trata-se de uma aritmética relativamente simples, conquanto um pouco enfadonha. Estudei esse assunto há muito tempo, e o que me deixou na época um tanto quanto descrente das interpretações relatadas é que deixou-se de lado um fenômeno observado por Etienne Louis Malus, em 1809, e ainda não explicado por teorias corpusculares da luz, nem pelas clássicas (corpúsculos de Newton), nem pelas modernas (bósons). Tenho minha opinião a respeito, mas volto a dizer que não me compete explicar as falácias da física moderna, conquanto possa eventualmente apontá-las.
Aliás, uma dúvida, a sua contestação ao elétron spinorial é ao spin, ou à descrição matemática usando spin. Ou seja, você aceita o spin com algo ad hoc, sem nenhuma explicação mais profunda?
Quando eu digo que o elétron pode ser representado matematicamente por um vetor, eu estou evitando chamar a isto como propriedade de giro, pois procuro não fazer conjecturas infundadas. A idéia de giro me é simpática, nada mais do que isso. Porém perceba que esta partícula vetorial ¾ou se quiser, esta partícula dotada de giro¾ deve apresentar efeitos relacionados ao seu movimento de translação e que diferem daqueles observados por um "ponto material" em movimento. Tanto "vetor" quanto "ponto material" são artifícios matemáticos convenientes, porém bastante diferentes. Um vetor em movimento, seja este movimento retilíneo, seja orbital, mostra, para um observador, características outras não mostradas por um ponto material. Uma destas características assemelha-se muito ao que os físicos chamam efeitos quirais. Se este vetor, alem de "poder ser observado visualmente" for responsável por algum efeito físico, os efeitos desse movimento podem gerar fenômenos outros e que talvez respondam pelo comportamento observado pelo que os físicos chamam "elétron spinorial". Perceba que eu não sou contra o fenômeno originado por este hipotético corpúsculo; apenas minhas hipóteses são outras, o que me obriga a explicar estes fenômenos de forma diferente. E procuro evitar nomenclaturas conflitantes. Como já disse acima, o "spin clássico" não é ad hoc. É um achado experimental. Ad hoc foram algumas das interpretações dadas ao fenômeno observado e que tiveram, como única finalidade, justificar lacunas da teoria quântica.
Msg 04
From: "Alberto Mesquita Filho"
Newsgroups: uol.ciencia
Sent: Tuesday, February 24, 1998 8:10 AM
Subject: Re: Um elétron... (metodologia)
Fabio Augusto da Costa Carvalho Chalub escreveu
Vou continuar com minhas críticas, mas tentarei colocá-las dentro de um contexto mais bem definido. No entanto, antes alguns comentários:
Achei interessante a forma como você subdividiu a mensagem: "Comentários", de natureza principalmente metodológica (teoria das teorias ou da teorização) e "crítica" propriamente dita. Tentarei quebrar a resposta em duas, seguindo esta idéia, e creio que os demais usuários terão a ganhar com isso.
É possível que a parte metodológica esgote-se rapidamente, pois nossas divergências a respeito têm muito de semânticas e através de um dialogo sadio como este poderemos convergir em muitos pontos. Por outro lado, creio que este é um terreno em que os demais usuários poderão participar ativamente mesmo que não conheçam, de antemão, nenhuma das teorias de que estamos tratando.
Quanto à segunda parte (e já iniciando aqui a primeira), fiquei feliz ao ler "minhas criticas estão apenas começando". Gostaria, no entanto, de deixar explícitos alguns detalhes a respeito de debates deste tipo que, como você dá a entender, não são muito comuns. Se é verdade que eu terei que assumir o papel de "principal advogado", se não o único, não é menos verdade dizer que o "promotor" é quem dá as cartas. Eu posso, quando muito, e com finalidades várias, tentar desviar a atenção para determinados assuntos de maior ou menor importância, mas não tenho como fugir ao que for delatado a não ser derrubando a critica, ou confessando minha ignorância no assunto ou, ainda, concordando com a idéia que, na melhor das hipóteses, enfraquecerá minha teoria.
Felizmente você concorda que a atividade de pesquisa tem um forte componente lúdico e desta forma, a exemplo do acontece nos tribunais, entre uma "desavença" e outra, advogado e promotor poderão "tomar um cafezinho numa boa". Qualquer que seja o resultado, gostaria que nossa discussão terminasse em pizza (não no sentido político do termo).
Vamos aos fatos:
Quando você diz "uma teoria, para substituir outra tem que explicar o que a outra já explicava", eu concordo dentro de limites temporais. A historia da ciência está repleta de exemplos a justificar a sua afirmação. No entanto isso não acontece imediatamente após a nova teoria ter sido lançada. A nova teoria precisa ser trabalhada, precisa passar por testes, precisa enfrentar críticas como as suas, precisa ganhar adeptos, enfim precisa, de alguma maneira, solidificar-se. Faraday, ao ser questionado sobre para que servia uma de suas teorias respondeu: "Para que serve uma criança ao nascer?" Perceba que dentre as crianças de hoje, aquelas que sobreviverem irão nos substituir. Porem não sabemos exatamente quem irá substituir cada um de nós, no sentido social do termo.
É verdade que a minha teoria já adquiriu um certo grau de sistematização mas, sem duvida alguma, "ela ainda é uma criança". À medida em que ela for se desenvolvendo, e admitindo-se que venha a resistir aos testes e críticas por que passar, certamente ganhará novos adeptos, com idéias novas e, gradativamente, e na dependência de sua abrangência, irá substituindo as outras teorias de menor consistência lógica; e aí então não precisaremos mais cobrar pelas explicações, pois ou ela explica o que estas outras teorias já explicavam, ou ela não as substituirá. Talvez aí esteja o "xis" da questão: a minha teoria não veio para substituir nenhuma outra; ela veio para ser testada. Se passar no teste, aí a historia será outra.
É obvio que, se eu estou propondo uma teoria num terreno em que já existem tantas outras, isto se deve ao fato de, por algum motivo, eu não estar satisfeito com a situação atual. E, em decorrência disto, exponho o que penso sobre esta ou aquela teoria, em termos do que momentaneamente me preocupa. Mas para que você entenda como eu me enxergo ao criticar a física moderna e, ao mesmo tempo, possa perceber que, embora até o momento seja o único, eu não posso ser um "bom advogado" de minha teoria, leia este pensamento de Einstein:
"Se o senhor quer estudar em qualquer dos físicos teóricos os métodos que emprega, sugiro-lhe firmar-se neste principio básico: não dê credito algum ao que ele diz, mas julgue aquilo que produziu. Porque o criador tem esta característica: as produções de sua imaginação se impõem a ele, tão indispensáveis, tão naturais, que não pode considerá-las como imagem de espírito, mas as conhece como realidades evidentes." (A. Einstein)
Quanto à "interpretação realista" que dei ao elétron, talvez tenha faltado acrescentar que tratava-se de um construto analógico-didático, a exemplo de outros freqüentemente utilizados em física. Poderia citar: o "lançamento de fótons virtuais" através de trajetórias atrativas ou repulsivas, da eletrodinâmica quântica; as imagens de partículas quirais destrógiras ou levógiras; a representação gráfica do "espaço-tempo bidimensional, da métrica de Minkowski; a idéia de uma bexiga sendo insuflada, para explicar a expansão do universo a partir do Big Bang, etc. O lapso talvez faça parte do que Einstein (op. cit.) chamou por "realidade evidente". Concordo com a "extensão do domínio de validade da teoria" no caso da supervalorização deste construto analógico (o que espero discutir na segunda parte ¾crítica propriamente dita). Aliás, a figura 2b (item 3.3) retrata esta "imagem de espírito".