From: Alberto Mesquita Filho Newsgroups: pt.ciencia.geral Subject: Re: Velocidade da luz... Date: 29 Sep 2000 23:34:55 +0100 "SMMT" escreveu > > > A ciencia não é uam questão de fé :-) é preciso fazer > > > experiencias :-)) > > Neste caso eu diria, raciocinando dialéticamente, que a > > ciência é uma questão de "fé na experiência". Ou não? > não. > A experiencia não implcia fé. A naturesa não implica fé. O usar a > natureza no seu estado directo não implcia fé. > A maçã cai indepedentemente da minha fé. Eu encaro a experiência como algo bem mais complexo do que uma simples observação. Se bem que possamos, talvez por um vício de linguagem, dizer que a observação é um tipo bem elementar de experiência, a experiência em si é algo bem mais complexo e envolve uma "análise" destinada a esmiuçar os procedimentos e os detalhes técnicos necessários para o teste de uma hipótese, incluindo até mesmo a montagem de um cenário. Se pretendermos, para citar um exemplo simples, testar a lei da inércia pela redução do atrito, deveremos selecionar o material apropriados para o teste, os mecanismos destinados a colocarem o corpo em movimento (impulso inicial), as manobras destinadas à redução do atrito, a seleção das variáveis a serem levadas em consideração, os dispositivos a medirem as variáveis escolhidas, a análise dos erros, etc. A complexidade deste procedimento analítico chega a ser enfatizada por Popper com as seguintes palavras: "O experimentador não está principalmente empenhado em fazer observações exatas; seu trabalho é, também, em grande parte, de natureza teórica. A teoria domina o trabalho experimental, desde o seu planejamento inicial até os toques finais, no laboratório" (POPPER, K.R., 1959: A Lógica da Pesquisa Científica, Editora Cultrix, São Paulo, 1975 (trad.).). Confundir observação com experiência seria o mesmo que confundir intuitivismo --a doutrina do "ver para crer", e que utilizando o raciocínio que impões, excluiria a fé-- com intuicionismo --a doutrina que valoriza a intuição como fonte de conhecimento legítimo e que propugna que o cientista é aquele que parte da verdade e, a partir de então, segue em busca da corroboração de suas teorias. Corroborar uma teoria, como afirma Popper, não é probabilizar e muito menos dar um rótulo de veracidade. Entre duas teorias concorrentes e dotadas de lógica ou de coerência interna, o cientista com freqüência opta por uma ou outra, e isto caracteriza sua fé numa das teorias e a descrença na outra. Einstein, por exemplo, no livro que escreveu com Infeld (A evolução da física) deixa bem claras as opções que fez ao desenvolver a teoria da relatividade, "optando" pelo eletromagnetismo de Maxwell em detrimento da relatividade clássica. É óbvio que ele apoiou-se na experimentação, porém utilizou-a de maneira a satisfazer seus caprichos momentâneos a apoiarem-se na sua fé. E a esse respeito, chegou a afirmar: "Se o senhor quer estudar em qualquer dos físicos teóricos os métodos que emprega, sugiro-lhe firmar-se neste princípio básico: não dê crédito algum ao que ele diz, mas julgue aquilo que produziu. Porque o criador tem esta característica: as produções de sua imaginação se impõem a ele, tão indispensáveis, tão naturais, que não pode considerá- las como imagem de espírito, mas as conhece como realidades evidentes." (Como Vejo o Mundo, Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1981, p.145.) > A ciência não tem fé na experiência, a ciência tem fé em que pode > alcançar essa verdade que a natureza detêm. Sob esse aspecto diria que a fé a que me refiro é do cientista e não da ciência. O cientista deposita sua fé na ciência e conseqüentemente no valor da experimentação. Repito, não obstante, como espero ter deixado claro na msg anterior, "que eu acredito que a ciência é bem mais do que isso". [ ]'s Alberto http://www.ecientificocultural.com/indice.htm Sent via Deja.com http://www.deja.com/ Before you buy.