Introdução à
físico-química das soluções
7a. parte
Alberto Mesquita Filho
B-9 INTERVALO MATEMÁTICO. LIMITES
a) Conceito intuitivo de limite
Em virtude do que foi exposto no item precedente podemos dizer que à medida em que a pressão de um gás tende a zero, o seu comportamento, frente a alterações em suas propriedades de estado, tende ao do gás ideal. Outras condições particulares a cada gás existem em que o comportamento dos mesmos aproxima-se ao do gás ideal. Em todos esses casos verifica-se que essa aproximação coincide com a obtenção de valores para Z cada vez mais próximos de 1. E o inverso é verdadeiro: sempre que Z tende a 1, o comportamento do gás tende ao ideal. É possível então definir o gás ideal como o limite para o qual tende o gás real, quando Z tende para 1. Simbolicamente podemos escrever:
Gás ideal
=
(gás real)
Raciocínio análogo pode ser efetuado para expressões matemáticas. Desta forma, através da definição de Z (equação 1-42) podemos escrever:
=
R
Esta expressão encerra o comportamento dos gases reais e é, em síntese, o verdadeiro enunciado para a Lei Geral dos Gases. A lei de Boyle seria um caso particular em que n e T, sendo constantes, não afetariam intrinsecamente o resultado do limite, podendo serem colocados em evidência:
=
pV = R
ou
pV = nRT = B
Analogamente teríamos, para a lei de Charles:
= C
e para a lei de Avogadro:
=
A
A figura 15 mostra o comportamento do oxigênio, num gráfico p versus pV [ou pV = f(p)], em condições de T e n constantes (T = 300K e n = 1 mol).
Existem duas regiões do gráfico, vizinhanças de Ao (p = 0) e de Ai (p = i), para as quais o comportamento do oxigênio a 300K aproxima-se do comportamento do gás ideal e, portanto, da obediência à lei de Boyle.
b) Conceito formal de limite
Analisemos com mais detalhes o gráfico da figura 15. Chamemos por Br (r de gás real) o valor assumido por pV = f(p). Nestas condições podemos dizer que o gráfico representa Br em função de p.
A figura 16 reproduz a figura 15 conservando apenas os detalhes que irão, por ora, nos interessar.
Dada uma vizinhança qualquer de um ponto A (a, b) qualquer do gráfico, corresponderá à mesma uma vizinhança Va de a no eixo de p e uma vizinhança Vb de b no eixo de Br. "Se para qualquer vizinhança Vb de b, por menor que ela seja, existir sempre em correspondência uma
vizinhança Va de a, de tal forma que para todo p pertencente a Va e p ¹ a, o valor correspondente de Br pertencer a Vb, podemos dizer que:
b =
f(p)
ou seja, o limite da função de p [no caso Br = f(p)] para p tendendo a a é igual a b. No caso particular do ponto Ai da figura 15 temos:
Br = B
e como p ® i é equivalente a Z ® 1, e Br = pV, podemos escrever:
pV = B
O mesmo raciocínio pode ser efetuado para o ponto Ao da figura 15, levando a:
pV = B
em que p ® 0+ exprime o fato de p ser sempre positivo, ou seja, fisicamente p somente tende a zero pela direita do gráfico.
c) Aplicações práticas
Tomemos os valores das propriedades de estado obtidas experimentalmente para um gás qualquer, fixando-se duas variáveis (por exemplo T e n), e coloquemos os mesmos num gráfico pV/nT = f(p), como mostrado na figura 17, tanto para o hidrogênio quanto para o oxigênio. O prolongamento destes gráficos para a esquerda (p ® 0+) fornece, no ponto em que p = 0, o valor de R o qual, para todos os gases reais é:
R =
![]()
= 0.08206
A partir do valor de R pode-se obter uma expressão para o volume do gás ideal:
Vid = 0.08206
válida para T em K, p em atm e fornecendo Vid em litros. Tratando-se de uma expressão para o gás ideal, é válida para qualquer pressão e temperatura. Para o volume molar do gás ideal teremos:
id =
=
.
e nas condições normais de pressão (1 atm) e temperatura (273.15 K) seu valor será:
id = (0.08206 × 273.15) / 1 = 22.414 litro/mol.
Outra aplicação prática do comportamento limite dos gases reais reside na determinação do peso molecular de gases e substâncias voláteis. Com efeito, sendo M constante (ausência de reações químicas), podemos escrever:
R =
![]()
=
![]()
= M
![]()
ou
M = R
![]()
=
![]()
A figura 18 mostra o gráfico do tipo
= f(p) para uma massa fixa de oxigênio a temperatura constante e igual a 300K. O prolongamento deste gráfico para a condição em que p = 0 fornece o valor de MO2 e, portanto, o peso molecular do oxigênio.
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